Um estudo da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), em parceria com a Tendências Consultoria, alerta para os potenciais efeitos negativos da proposta de redução da jornada semanal de trabalho no Brasil. A mudança, que pode reduzir a carga horária de 44 para 36 horas semanais e extinguir a escala 6×1, pode provocar queda do Produto Interno Bruto (PIB), aumento do desemprego e avanço da informalidade.
Segundo as simulações do estudo, mesmo num cenário otimista com ganho de produtividade de 2%, o PIB brasileiro poderia cair até 3,7% no primeiro ano após a mudança. No horizonte de cinco anos, a queda acumulada poderia chegar a 4,9%.
A estimativa indica que cerca de 1,5 milhão de trabalhadores formais podem enfrentar risco de demissão ou migração para a informalidade. A redução da jornada sem aumento proporcional da produtividade elevaria os custos com pessoal, o que poderia levar empresas a reduzir contratações, cortar postos de trabalho ou diminuir o horário de funcionamento.
Outro efeito apontado envolve a renda dos trabalhadores. Embora o salário por hora possa aumentar, o salário mensal tende a permanecer estável se as empresas reduzirem as horas contratadas, podendo levar à chamada “dupla ocupação”, onde o trabalhador precisa de dois empregos para manter o mesmo nível de renda.
O estudo destaca que a indústria brasileira possui realidades muito diferentes, e uma mudança uniforme na jornada poderia aumentar custos para empresas com menor margem de lucro, reduzindo investimentos e afetando empregos.
Para a Fiep, o debate sobre a modernização das relações de trabalho é necessário, mas as mudanças devem ocorrer com negociação coletiva e adaptação às características de cada setor. A entidade defende que o Brasil precisa avançar primeiro em políticas de aumento da produtividade, como modernização tecnológica, qualificação dos trabalhadores e simplificação tributária.
O estudo também analisou experiências internacionais de redução de jornada em países como Alemanha, França e Portugal, onde muitos casos registraram efeitos nulos ou negativos sobre o emprego, queda de produtividade e aumento de custos para as empresas.
Outros levantamentos recentes, como os da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Confederação Nacional do Comércio (CNC), apontam desafios semelhantes. A redução da jornada com manutenção integral dos salários elevaria o custo por hora trabalhada em cerca de 22%, e cada aumento de 1% no custo do trabalho pode elevar a informalidade em aproximadamente 0,34%.
Setores como comércio, turismo e agronegócio seriam particularmente impactados, com possibilidade de aumento de preços, redução de margens e perda de competitividade.
Economistas ouvidos nos estudos concordam que o principal desafio para uma redução sustentável da jornada no Brasil é elevar a produtividade do trabalho. Sem esse avanço, a mudança pode pressionar custos, reduzir investimentos e estimular a informalidade, transformando uma medida voltada ao bem-estar do trabalhador em um fator de instabilidade econômica.