O que explica o preço recorde do ouro, que chegou a ultrapassar a marca de US$ 5.500? Para o economista Sérgio Vale, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da USP e economista-chefe da MB Associados, a valorização do metal é como uma reação de defesa do organismo diante de uma infecção no sistema econômico.

“O ouro é como se fosse uma febre. E o que a gente precisa agora é identificar a causa dessa febre. É uma bactéria, é um vírus, é uma bactéria agressiva? Os remédios que existem resolvem?”, disse ele em entrevista ao podcast O Assunto.

Diferente de crises anteriores, o cenário atual é impulsionado por uma desorganização profunda nas instituições americanas e tensões geopolíticas sem precedentes sob a presidência de Donald Trump.

Vale compara a situação atual com a dos anos 70, quando a “febre do ouro” teve remédio, citando as políticas do economista Paul Volcker que funcionaram e fizeram a febre passar nos anos 80. “A febre do ouro agora, eu tenho a impressão que não tem remédio, que não tem antibiótico de última geração para solucionar essa crise nesse momento. Porque o agente causador infeccioso agressivo continua presente.”

Paul Volcker foi decisivo no fim da conversibilidade do dólar em ouro em 1971, marcando o início do regime de câmbio flutuante.

Por que o preço do ouro disparou?

O avanço do metal é alimentado por uma combinação de fatores políticos e fiscais, especialmente centrados nas ações do governo de Donald Trump:

  • Incerteza política e institucional: Ataques diretos à independência do Federal Reserve (Fed) e processos contra diretores do banco central americano geram instabilidade.
  • Crise fiscal nos EUA: Uma política fiscal mal desenhada tem gerado grandes déficits e dúvidas sobre a capacidade de ajuste do Congresso americano.
  • Tensões geopolíticas: Disputas comerciais com a China e ameaças erráticas contra países da OTAN pressionam os mercados.

Na sexta-feira (30), Donald Trump indicou o economista Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve, substituindo Jerome Powell. Warsh é visto como favorável a juros mais baixos, mas considerado menos radical. Sua indicação foi bem recebida pelo mercado, resultando em uma valorização do dólar e uma queda de 3,7% no preço do ouro.