Uma discussão interna no governo dos Estados Unidos pode levar à classificação das facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A medida, que ainda está em análise, tem mobilizado a diplomacia brasileira em uma tentativa de frear a decisão, diante dos potenciais impactos na soberania e na economia do país.
O cenário ganha contornos mais complexos quando observamos ações recentes dos EUA na América Latina. Nos últimos meses, pelo menos três países da região foram alvo de operações americanas contra grupos classificados como narcotraficantes pela Casa Branca. No final de 2025, por exemplo, uma ação militar envolvendo navios, caças e drones norte-americanos resultou no bombardeio de embarcações no Mar do Caribe, com um saldo de pelo menos 100 mortos entre venezuelanos e colombianos. No México, o serviço de inteligência dos EUA colaborou diretamente na operação que eliminou o líder do maior cartel de drogas do país.
Esses precedentes levantam questões cruciais sobre os reais objetivos por trás da possível designação das facções brasileiras como terroristas. Especialistas apontam que, além do combate ao crime transnacional, a agenda de segurança pública pode servir a interesses geopolíticos mais amplos dos Estados Unidos na região.
O crescimento exponencial do crime organizado no Brasil nas últimas décadas transformou grupos como o CV e o PCC em atores com influência que ultrapassa as fronteiras nacionais, gerando impacto em todo o continente. A suposta conexão entre essas organizações e grupos considerados terroristas no exterior, como o Hezbollah, tem sido um dos argumentos utilizados pelos EUA para justificar a reclassificação.
Internamente, o tema também se tornou uma armadilha eleitoral no Brasil, com o governo tentando postergar o debate até após uma reunião entre o presidente Lula e seu homólogo norte-americano, Donald Trump. A classificação como organização terrorista conferiria aos EUA um amplo leque de instrumentos legais e operacionais para atuar, incluindo sanções econômicas e, em cenários extremos, justificativas para intervenções.
O cerne da questão reside na definição dos critérios utilizados pelos Estados Unidos para catalogar uma organização como terrorista estrangeira e nas consequências práticas dessa designação para um país soberano como o Brasil. Enquanto a discussão avança em Washington, o Brasil se vê no desafio de equilibrar a cooperação internacional no combate ao crime com a defesa de sua autonomia e a proteção de seus interesses nacionais.