A exportação de gado vivo por navio registrou um crescimento significativo, dobrando seu volume entre 2023 e 2025, conforme dados da plataforma Agrostat, do Ministério da Agricultura. Apesar do aumento nas vendas, que atingiram quase 4 milhões de quilos em 2025, o transporte marítimo de animais vivos continua a ser alvo de críticas de especialistas em bem-estar animal e ambientalistas.
O presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Gado (Abeg), Lincoln Bueno, explica que essa modalidade de comércio atende principalmente a dois mercados: populações que preferem carne de animais abatidos recentemente e países que exigem protocolos religiosos específicos para o abate. Os principais compradores são nações da região do Magreb, como Marrocos, Argélia e Tunísia.
No entanto, a prática é controversa. Casos recentes, como o de um navio uruguaio que ficou encalhado na Turquia em 2025 com cerca de 3 mil vacas, reacenderam o debate sobre maus-tratos e condições inadequadas durante o transporte. Em 2018, o Brasil também foi alvo de denúncias devido ao navio NADA, que permaneceu atracado no Porto de Santos com superlotação e excesso de dejetos.
Especialistas apontam problemas como espaço insuficiente para os animais, sistemas de ventilação precários – especialmente nos decks inferiores – e acúmulo de fezes e urina, que geram altos níveis de amônia e umidade. A professora Aline Sant’Anna, da Unesp, especialista em transporte marítimo de gado vivo, ressalta que “estar de acordo com a legislação não é sinônimo de conforto para o animal”.
Em contrapartida, representantes do setor e do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais Federais Agropecuários (Anffa Sindical) defendem que a fiscalização no Brasil é rigorosa e que os navios que partem do país cumprem as exigências legais. Gisele Leite Camargo, coordenadora do Anffa Sindical, afirma que o índice de mortes durante as viagens é considerado baixo, variando de uma a três por viagem, mesmo em embarcações com milhares de animais.
Apesar das controvérsias, a exportação de gado vivo é vista como uma importante válvula de escape para regular os preços no mercado interno, garantindo remuneração aos pecuaristas mesmo em períodos de queda. Enquanto países como Reino Unido e Nova Zelândia já proíbem essa prática, o debate no Brasil segue dividido entre os interesses econômicos do agronegócio e as preocupações com o bem-estar animal e o meio ambiente.