Autoridades dos Estados Unidos e da Venezuela iniciaram conversas para retomar a exportação de petróleo bruto venezuelano para refinarias americanas. A informação, divulgada pela agência Reuters, baseia-se em cinco fontes dos governos, da indústria e do setor de transporte marítimo.

O diálogo ocorre num contexto em que a Venezuela acumula milhões de barris de petróleo em navios e tanques de armazenamento, sem conseguir exportá-los devido ao embargo imposto pelo governo do presidente Donald Trump, em vigor desde dezembro. Este bloqueio é parte da pressão americana sobre o governo de Nicolás Maduro.

Segundo as fontes, um acordo permitiria redirecionar para os EUA embarques de petróleo que, até então, tinham como destino principal a China. O país asiático tornou-se o maior comprador da Venezuela na última década, especialmente após as sanções americanas de 2020 a empresas envolvidas no comércio petrolífero venezuelano.

Atualmente, o fluxo de petróleo venezuelano para os EUA é controlado pela petroleira americana Chevron, que opera no país através de joint ventures com a estatal PDVSA, sob autorização do governo dos EUA. A empresa exporta entre 100 mil e 150 mil barris por dia e, nas últimas semanas, tem sido vista como a única capaz de realizar embarques contínuos apesar do embargo.

A PDVSA já precisou reduzir a produção por falta de espaço para armazenar o petróleo. Uma das fontes alertou que, sem uma solução rápida para as exportações, novos cortes na produção serão inevitáveis.

Interesse estratégico dos EUA

No sábado (3), após a prisão de Nicolás Maduro por forças americanas, o presidente Donald Trump afirmou a intenção de abrir o setor petrolífero da Venezuela para grandes companhias dos EUA. “Nossas gigantescas companhias petrolíferas dos EUA, as maiores do mundo, vão entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura petrolífera que está em péssimo estado e começar a gerar lucro para o país”, declarou.

As refinarias americanas na Costa do Golfo são especializadas em processar o petróleo pesado venezuelano. Antes das primeiras sanções, essas companhias importavam cerca de 500 mil barris por dia.

Apesar de deter as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris, a Venezuela produz atualmente apenas cerca de 1 milhão de barris por dia. Esta queda é resultado das sanções internacionais e de graves problemas de infraestrutura. Analistas, como Arne Lohmann Rasmussen da Global Risk Management, alertam que recuperar a produção será um processo lento, que exige investimentos vultuosos e pode levar anos.

O potencial subaproveitado do petróleo venezuelano

A Venezuela possui a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, à frente da Arábia Saudita e do Irã. Contudo, grande parte deste recurso é extrapesado, exigindo tecnologia avançada e elevado capital para sua extração. O potencial permanece largamente subaproveitado devido à infraestrutura precária e às restrições internacionais.

A produção do país despencou de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para cerca de 1 milhão em 2023, representando menos de 1% da produção global.

Dependência histórica e crise económica

O petróleo moldou a economia venezuelana ao longo do século XX. Após a nacionalização da indústria em 1976 e a criação da PDVSA, o setor tornou-se um monopólio estatal. Durante os governos de Hugo Chávez, a maior parte da receita petrolífera foi direcionada para programas sociais, em detrimento de outros investimentos na economia.

Entre 1998 e 2019, mais de 90% das exportações venezuelanas vieram do petróleo. A queda acentuada na produção e nas receitas, agravada pelas sanções, contribuiu diretamente para uma crise económica profunda e uma hiperinflação histórica.

Fonte: G1