O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco/MP-SP, declarou que os Estados Unidos não considerarão a posição oficial do governo brasileiro ao avaliarem a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) como uma organização terrorista. A afirmação foi feita em entrevista ao Estúdio I nesta quarta-feira (11).
Gakiya, que investiga a facção há duas décadas e vive sob escolta policial permanente, participou recentemente de reuniões com assessores diretos do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Segundo ele, as autoridades norte-americanas buscaram compreender detalhadamente o funcionamento e a estrutura do PCC.
Em 2025, representantes dos EUA estiveram no Brasil para coletar informações sobre a ameaça representada pela facção, tanto em nível nacional quanto internacional. Um relatório do Ministério Público de São Paulo, apresentado a embaixadas e consulados, aponta que o PCC está presente em pelo menos 28 países, com 2.078 integrantes, muitos atuando de dentro de presídios estrangeiros para recrutar membros e expandir negócios ilícitos.
Nesta semana, Gakiya se reunirá novamente com representantes do governo estadunidense para alinhar pautas de um encontro futuro com a DEA, o FBI e o Departamento de Estado em Boston.
Posição contra a classificação como terrorismo
Gakiya reforçou seu entendimento de que o PCC não se enquadra como organização terrorista, mas sim como uma organização criminosa transnacional com características mafiosas. “O PCC nunca teve cunho ideológico ou político. Não tem ódio racial, religioso ou de etnia como objetivo”, afirmou. Seu foco, segundo o promotor, é puramente comercial: lucro e dominação territorial.
O promotor criticou a politização do tema, que criaria expectativas irreais na população, como um endurecimento automático de penas ou uma intervenção militar estrangeira. Ele alertou que a classificação como terrorista poderia, na verdade, prejudicar o combate ao crime.
Atualmente, a troca de informações entre o MP brasileiro, o FBI e a DEA ocorre de forma fluida via cooperação policial. Caso o PCC seja rotulado como grupo terrorista, esses dados poderiam ser elevados ao nível “confidencial” e passar para a alçada da CIA, dificultando o acesso direto dos investigadores brasileiros.
Além disso, Gakiya destacou riscos de sanções econômicas ao Brasil e de dificuldades de acesso a bancos multilaterais, como o Banco Mundial e o BID. A classificação também abriria caminho legal para que os EUA autorizassem ações militares fora de seu território contra esses grupos.
Pressão diplomática
Enquanto isso, o governo brasileiro tenta frear a discussão em curso nos Estados Unidos para classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, pediu por telefone ao secretário Marco Rubio que não encaminhe a decisão ao Congresso dos EUA pelo menos até após um encontro presencial entre os presidentes Lula e Donald Trump.
A solicitação visa ganhar tempo para que o governo brasileiro possa demonstrar, na reunião bilateral, suas ações no combate ao crime organizado. A visita oficial de Lula à Casa Branca, inicialmente prevista para março, ainda não teve uma data definida devido a ajustes de agenda.