Um estudo do Instituto Sou da Paz divulgado neste domingo (8) revela que quase metade das mortes violentas de mulheres no Brasil em 2024 foram cometidas com arma de fogo. A pesquisa “Pela Vida das Mulheres: o Papel da Arma de Fogo na Violência de Gênero” aponta que 47% dos homicídios femininos registrados no país naquele ano envolveram o uso de arma de fogo.

No total, 3.642 mulheres foram vítimas de homicídio em 2024, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Este número inclui todas as mortes classificadas como homicídio, abrangendo agressões, feminicídios e casos decorrentes de intervenção policial.

Embora os homicídios de mulheres tenham registrado uma redução de 5% entre 2020 e 2024, e as mortes por arma de fogo tenham caído 12% no mesmo período, este tipo de arma permanece como o meio mais letal. A pesquisadora Malu Pinheiro, do Instituto Sou da Paz, destaca que “nos casos de feminicídio em que foram utilizadas armas de fogo, há até 85% mais chances de a vítima morrer do que quando outros meios de agressão são utilizados”.

Feminicídios em Ascensão

O relatório indica que 1.492 homicídios de mulheres em 2024 foram classificados como feminicídio, representando cerca de 40% do total. Este percentual mostra um aumento em relação a 2023, quando 36,8% dos assassinatos foram enquadrados como feminicídio. Curiosamente, os feminicídios foram praticados principalmente com arma branca (48%) e, em seguida, com arma de fogo (23%).

Perfil e Cenário das Vítimas

A maioria dos homicídios de mulheres ocorre em residências (35% em 2024) ou em vias públicas (29%). No entanto, quando o crime envolve arma de fogo, o cenário predominante muda para as vias públicas. O perfil das vítimas é marcante: 67,5% são mulheres negras (pretas e pardas), proporção que sobe para 72,3% nos casos de violência armada. A faixa etária mais afetada está entre 18 e 44 anos, concentrando 68% dos homicídios.

Disparidades Regionais e o Debate sobre Armas

A região Nordeste concentrou 38% dos homicídios de mulheres em 2024 e apresentou a maior taxa por 100 mil mulheres. Nesta região, 51% dos homicídios femininos foram cometidos com arma de fogo. Estados como o Ceará registram proporções alarmantes, onde 78% das mulheres assassinadas morreram em episódios de violência armada.

O estudo também levanta o debate sobre a flexibilização do acesso a armas de fogo. Entre 2018 e 2022, o número de registros de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs) cresceu 665% no Brasil. A pesquisadora Malu Pinheiro alerta que “a flexibilização do acesso às armas aumentou o número de casos em que armas obtidas legalmente são utilizadas em homicídios contra mulheres”, embora a origem precisa das armas usadas nos crimes ainda seja difícil de rastrear devido às limitações dos dados.

Violência Não Letal e a Necessidade de Proteção

Em 2024, foram registradas 327,7 mil notificações de violência interpessoal não letal contra mulheres no sistema de saúde, sendo que cerca de 4,4 mil envolveram o uso de arma de fogo. A maioria dessas agressões (44,5%) ocorreu dentro de casa, e 35% dos casos indicavam violência de repetição.

Para Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, os dados reforçam a urgência de fortalecer as políticas de proteção. “A prevenção depende da efetiva implementação da rede de proteção nos territórios, das delegacias especializadas aos centros de acolhimento, com acesso a medidas protetivas, e do fortalecimento do controle de armas”, afirma.