As eleições de 2026 já começam a moldar o cenário político brasileiro, com um fenômeno cada vez mais evidente: a campanha eleitoral está se tornando um espetáculo pensado para viralizar nas redes sociais. Analistas apontam que gestos simbólicos, eventos coreografados e conteúdos digitais estão sendo planejados não apenas para comunicar propostas, mas para capturar a atenção em um ambiente saturado de informação.

“A política se torna o campo do espetáculo”, afirma a cientista política Isabela Rocha, da Universidade de Brasília (UnB). “Os discursos em plenário têm trechos ensaiados para saírem nas redes, e as ações são pensadas com base na repercussão prevista. A tendência é que essa estratégia se intensifique.”

A Performance como Estratégia Política

Dois exemplos recentes ilustram essa tendência de usar o esforço físico e a exposição contínua como ferramenta política:

  • Nikolas Ferreira (PL-MG): Realizou uma caminhada de mais de 240 km entre Paracatu (MG) e Brasília (DF), transmitindo todos os seis dias de trajeto em suas redes sociais. O ato, um protesto, culminou com um evento na Esplanada dos Ministérios reunindo milhares de pessoas.
  • Glauber Braga (PSOL-RJ): Fez uma greve de fome de oito dias dentro da Câmara dos Deputados em 2024, como forma de protesto contra um processo no Conselho de Ética.

“Essas ações atingem o público de uma forma mais emocional que racional”, analisa Isabela Rocha. “A performance é a nova forma de fazer política e o eleitor é muito emocionado, por isso esses conteúdos ganham tanta visibilidade.”

O Dilema entre Viralização e Propostas

A busca pela viralização, no entanto, acentua um desequilíbrio entre a encenação política e a discussão de propostas concretas. Políticos passaram a publicar com frequência conteúdos sobre rotina pessoal, prática de esportes ou atividades cotidianas, com o objetivo principal de manter o engajamento e a presença constante nas timelines.

“Esses políticos estão tentando produzir mais material, mais conteúdo. Quem consome isso, na maior parte, é a própria base. Ele está falando com o próprio eleitor para manter esse público cativado e mobilizado”, explica o cientista político Glauco Peres, da Universidade de São Paulo (USP).

O prefeito do Recife, João Campos (PSB), é um exemplo frequente, postando vídeos de atividades físicas como futebol e corrida. Conteúdos aparentemente apolíticos, mas que servem à manutenção da performance digital.

Diferenças Estratégicas entre Direita e Esquerda

Embora a lógica das redes sociais influencie todos os espectros, especialistas observam nuances nas estratégias performáticas:

  • Na Direita: As ações costumam estar associadas a narrativas de enfrentamento ou denúncia contra instituições, com apelo emocional e linguagem direta. O vídeo do deputado Nikolas Ferreira sobre o PIX, que alcançou centenas de milhões de visualizações ao atacar uma medida governamental, é um caso emblemático.
  • Na Esquerda: As performances aparecem com mais frequência vinculadas a ações coletivas e causas sociais, como greves e mobilizações organizadas, com foco em pautas estruturais. Um vídeo do governo federal explicando a isenção do Imposto de Renda com metáforas usando gatinhos ilustra a tentativa de adaptar a comunicação a essa lógica.

“Essa parte do que eu observo como uma dificuldade da esquerda política, de conseguir engajar, de conseguir realmente trazer bastante participação nas plataformas, é algo que a direita já faz muito bem desde 2018”, opina Isabela Rocha.

O Efeito no Debate Democrático

Um dos riscos apontados por analistas é a limitação do debate eleitoral. A lógica algorítmica das redes favorece a confirmação de crenças pré-existentes, criando bolhas onde os eleitores consomem apenas conteúdos que reforçam suas visões.

“Você nunca tem o debate inteiro, você nunca vê tudo do que está sendo dito. Então sempre tem a fala que vai ser criticada, o político critica, aquilo acaba. Você não vê a réplica”, ressalta Glauco Peres.

O resultado é uma campanha política permanente, onde os mandatos não se restringem mais a Brasília, mas se alimentam de conteúdo para as redes “o tempo todo”, criando um novo paradigma para as eleições de 2026 e além.