Pouco mais de uma semana após o início da guerra entre os Estados Unidos e Israel contra o Irã, o conflito já causa impacto na economia global. Na segunda-feira (9), o preço do petróleo bruto Brent e WTI, referências do mercado internacional, ultrapassou a marca de US$ 100 (R$ 520) pela primeira vez desde 2022. Em comparação, em 27 de fevereiro, um dia antes do início das hostilidades, o preço rondava os US$ 70 (R$ 364) por barril.

Este aumento ocorreu principalmente devido ao virtual fechamento do tráfego marítimo pelo Estreito de Ormuz, após o governo iraniano ameaçar navios que tentassem atravessar essa hidrovia, por onde passa aproximadamente 20% do petróleo e gás do mundo. Mas, embora o aumento dos preços do petróleo fosse claramente esperado, especialistas preveem que suas repercussões serão sentidas em outras áreas da economia e em diferentes partes do mundo.

1. Produção de alimentos sob risco

O conflito atual está afetando os principais exportadores de fertilizantes. Omã, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos são quatro dos maiores exportadores globais de fertilizantes nitrogenados, segundo dados do Observatório de Complexidade Econômica. Esse tipo de fertilizante é produzido a partir de gás natural e é utilizado em plantações que produzem cerca de metade do suprimento mundial de alimentos.

Embora a maioria dos produtores da região tenha continuado operando apesar da guerra, a Qatar Energy, uma das principais produtoras de ureia, teve que suspender suas operações após o fornecimento de gás ter sido interrompido na semana passada devido a ataques. Além disso, os benefícios da continuidade das operações são limitados pelo fato de que essas empresas não conseguem exportar seus fertilizantes devido ao fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa um terço do suprimento mundial de fertilizantes.

Como consequência, os preços dos fertilizantes já começaram a subir significativamente. No Porto de Nova Orleans, principal ponto de entrada desses produtos nos EUA, o preço saltou de US$ 516 (R$ 2.684) para US$ 683 (R$ 3.552) por tonelada métrica durante a primeira semana da guerra. Analistas preveem que, caso o conflito continue, os consumidores começarão a sentir o impacto nos preços dos alimentos dentro de um a três meses, enfrentando custos mais altos e escassez.

2. Restrição da distribuição global de medicamentos

A guerra também está impactando a cadeia de suprimentos global de medicamentos e produtos farmacêuticos. Isso se deve principalmente aos ataques sofridos por Dubai, um importante centro logístico no setor. A cidade abriga o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, que é um importante centro de distribuição de cargas para medicamentos, especialmente aqueles que exigem manutenção da cadeia de frio.

A indústria farmacêutica da Índia, a maior fornecedora mundial de medicamentos genéricos e que produz 60% das vacinas do mundo, tem como o aeroporto de Dubai um ponto estratégico de distribuição. Dubai também possui o Porto de Jebel Ali, considerado o nono porto de cargas mais movimentado do mundo. Cerca de 400 empresas farmacêuticas e de saúde de 60 países operam no porto.

Os ataques militares iranianos causaram danos tanto ao porto quanto ao aeroporto de Dubai, interrompendo as operações normais. Embora existam algumas rotas alternativas, muitas têm menor capacidade, exigem dias adicionais de viagem e incorrem em custos mais elevados, o que pode, em última análise, aumentar o preço e a disponibilidade desses produtos.

3. Produção de metais, substâncias químicas e eletrônicos

A distribuição de elementos químicos como enxofre e de matérias-primas como alumínio, que desempenham um papel fundamental na produção industrial, também está sendo impactada. Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait e Irã estão entre os principais exportadores de enxofre, um subproduto do refino de petróleo e gás. De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos, 24% da produção mundial de enxofre tem origem no Oriente Médio.

Grande parte dessa produção é utilizada para fertilizantes, mas também tem usos importantes na extração de minerais e metais como cobre e níquel, essenciais para a produção de eletrodomésticos, veículos, redes elétricas, semicondutores, baterias e aço inoxidável. Durante a primeira semana do conflito, companhias mineradoras de níquel na Indonésia — país responsável por mais de 50% do níquel mundial — anunciaram cortes na produção devido a interrupções no fornecimento dos países do Golfo, que fornecem 75% do enxofre utilizado.

Como o ácido sulfúrico — que é produzido com enxofre — é um dos componentes mais importantes para a fabricação de semicondutores e chips, interrupções no fornecimento podem impactar a produção de inúmeros produtos considerados essenciais na vida moderna, como smartphones, computadores e veículos. Esta não é a primeira vez que o mundo enfrenta uma situação como essa. Durante a pandemia de covid-19, a escassez de chips impactou tanto os volumes de produção quanto o preço final. Desta vez, há um fator adicional: a alta demanda por chips por parte de empresas que desenvolvem e implementam modelos de inteligência artificial.