Após fechar 2024 cotado acima de R$ 6,20, o dólar iniciou 2026 em forte trajetória de baixa, retornando a patamares similares aos de maio do ano anterior. O movimento, que já reflete no consumo, na inflação e nas decisões de investimento, é resultado de uma combinação de fatores internacionais e domésticos.

O que explica a desvalorização do dólar?

No cenário global, a moeda americana perdeu força devido à expectativa de cortes nos juros dos Estados Unidos e ao aumento das incertezas políticas no país. Isso reduziu a atratividade do dólar como “porto seguro” e estimulou investidores a buscar retornos mais elevados em outros mercados.

“Esse ambiente favorece países emergentes, especialmente quando há entrada de recursos direcionados ao mercado acionário, o que amplia a oferta de dólares e pressiona as cotações para baixo”, explica Otávio Araújo, consultor-sênior da Zero Markets Brasil.

Por que o Brasil se destaca?

O Brasil voltou a ser um destino atrativo para o capital estrangeiro, principalmente devido ao elevado diferencial de juros, com a Selic no maior patamar em quase duas décadas. Essa dinâmica alimenta a estratégia de carry trade, na qual investidores captam recursos em países de juros baixos para aplicar em mercados com retornos mais altos, como o brasileiro.

Parte significativa desses recursos tem fluído para a Bolsa de Valores, que renovou recordes e superou os 180 mil pontos. Esse influxo de dólares ajuda a explicar a pressão de baixa sobre a cotação da moeda americana.

Impactos no bolso do brasileiro

A valorização do real começa a aliviar despesas diretamente atreladas ao dólar. Produtos importados, como eletrônicos, eletrodomésticos e medicamentos, tendem a sofrer menos reajustes ou até ficarem mais baratos, conforme o custo de importação diminui.

“Os impactos para o bolso dos brasileiros têm reflexo rápido no dia a dia, com os produtos importados com tendência de ficar mais baratos, e isso traz uma menor pressão inflacionária”, afirma Marcio Riauba, head da Mesa de Operações da StoneX Banco de Câmbio.

O alívio também se estende a viagens internacionais, assinaturas de streaming e compras em sites estrangeiros. Embora não signifique uma queda automática de preços nas prateleiras, reduz uma fonte importante de pressão inflacionária, contribuindo para um ambiente econômico mais equilibrado.

Consequências para os investimentos

No mercado financeiro, um real mais forte tende a beneficiar a Bolsa brasileira, atraindo mais investidores estrangeiros. Setores ligados ao consumo interno, como varejo, construção civil e serviços, são os mais favorecidos.

Por outro lado, empresas exportadoras — como as dos setores de agronegócio, proteína animal e mineração — costumam ser prejudicadas. Como recebem em dólar, a valorização do real reduz sua receita quando convertida para a moeda local, pressionando margens e lucratividade.

Além disso, a maior estabilidade cambial diminui o risco de pressões inflacionárias vindas do câmbio, trazendo previsibilidade e favorecendo investimentos de renda fixa, como títulos prefixados e atrelados ao IPCA. No entanto, a perspectiva de futuros cortes na Selic pode limitar o potencial de retorno desses papéis no médio prazo.

Riscos no horizonte: a pauta eleitoral

Apesar do cenário favorável, a trajetória de queda do dólar não está livre de riscos. O principal deles é de natureza política. A partir de abril de 2026, o debate eleitoral deve ganhar espaço na formação de preços dos ativos, reduzindo o peso dos fundamentos macroeconômicos.

“É esperado que, a partir de meados de abril e ao longo do segundo semestre, a pauta eleitoral passe a dominar a precificação dos ativos no Brasil. Nesse ambiente, os fundamentos perdem espaço”, alerta Bruno Shahini, especialista da Nomad.

A questão fiscal é um ponto especialmente sensível. A ausência de sinais claros de compromisso com o equilíbrio das contas públicas pode afetar a confiança dos investidores, aumentar o “prêmio de risco” do Brasil e reverter a tendência de valorização do real, com impactos negativos para a inflação e as expectativas de juros.