O presidente argentino, Javier Milei, enfrenta um desafio diplomático complexo: equilibrar os laços comerciais estratégicos com a China e o alinhamento ideológico e político com os Estados Unidos de Donald Trump. A situação ficou evidente com a declaração de Milei sobre uma possível viagem à China em 2025, num momento em que Trump pressiona por maior influência norte-americana na região.
Durante a campanha presidencial de 2023, Milei prometeu não fazer “negócios com a China”. No entanto, após a eleição, adotou uma postura pragmática, reconhecendo a importância do gigante asiático, que é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, atrás apenas do Brasil.
A China investe fortemente em energia, lítio e infraestrutura no país. Em 2025, o comércio bilateral representou 23,7% das importações e 11,3% das exportações argentinas. A relação consolidou-se com a renovação, em 2024 e 2025, do acordo de swap cambial no valor de US$ 5 bilhões, crucial para as reservas internacionais de Buenos Aires.
Paralelamente, Milei mantém um alinhamento firme com os EUA. Em outubro de 2025, recebeu uma linha de ajuda financeira de US$ 20 bilhões de Washington. O governo Trump, através da chamada “Doutrina Donroe”, busca conter a influência chinesa na América Latina. “Não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina”, declarou o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.
Analistas apontam o conflito. “Esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel entra em conflito com a tentativa de estreitar relações com a China”, disse Patricio Giusto, do Observatório Sino-Argentino. Milei tenta separar a relação económica com a China do alinhamento geopolítico com os EUA, mas a sustentabilidade desta estratégia é questionável, especialmente se Trump impuser condições ao comércio.
Em Davos, Milei afirmou que a China é uma “grande parceira comercial” e que isso “não entra em conflito” com o alinhamento com os EUA. Para a Argentina, a relação com a China é vista como insubstituível. Em 2025, 70% das exportações para o país asiático foram de soja, carne bovina e lítio. Além disso, importações “door to door” de plataformas como Temu e Shein cresceram 274,2%.
“Para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável”, observou Florencia Rubiolo, da Universidade Siglo 21. O dilema de Milei permanece: como navegar entre dois gigantes geopolíticos sem comprometer os interesses económicos vitais da Argentina nem o apoio do seu principal aliado político.