Carolina Nucci e Mariam Tapeshashvili representam milhares de mulheres que precisam superar julgamentos e barreiras adicionais para construir suas carreiras. O episódio vivido por Carolina no autódromo de Interlagos, onde sua credencial foi questionada com base na aparência, ilustra um padrão que persiste décadas depois.

“Mocinha, com essa carinha, certeza que foi algum piloto que te deu essa credencial”, ouviu da fiscalização. Mesmo com autorização para cobrir o evento, precisou da intervenção de um homem para confirmar sua presença legítima. Sua estratégia de defesa? Usar uma aliança falsa para tentar obter respeito.

Os números da desigualdade

O relatório Women in the Workplace, da McKinsey & Company em parceria com a Lean In, revela dados preocupantes:

  • Quase 50% das mulheres com menos de 30 anos afirmam que a idade impactou negativamente suas oportunidades
  • 36% perderam aumentos, promoções ou chances de progressão por causa da idade
  • Apenas 29% dos cargos de alta administração são ocupados por mulheres

Mariam Topeshashvili, gerente aos 29 anos em uma agência internacional, enfrenta sua própria batalha. Nascida na Geórgia, criada em uma favela do Rio e formada em Harvard, ainda ouve comentários que duvidam de sua capacidade. “Eu me sentia um patinho fora d’água. Muitas vezes tinha a sensação de que não era ouvida”, relata.

Microagressões e suas consequências

O estudo detalha comportamentos sutis mas prejudiciais:

  • 39% das mulheres são interrompidas enquanto falam
  • 38% têm sua área de especialização questionada
  • 18% são confundidas com alguém de nível hierárquico inferior
  • 37% sofrem alguma forma de assédio sexual durante a carreira

Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora, observa a diferença de tratamento: “Quando um homem jovem é promovido, a reação costuma ser de admiração. Quando é uma mulher, muitas vezes há questionamento”.

O “degrau quebrado” e o impacto psicológico

Mulheres que enfrentam microagressões frequentes têm maior probabilidade de se sentirem esgotadas, considerar deixar o emprego e perceber o ambiente como injusto. Dhafyni Mendes, cofundadora do Todas Group, explica: “Mulheres que são frequentemente interrompidas e cujas opiniões são ignoradas — mas depois valorizadas quando repetidas por outros — tendem a ter o desempenho impactado”.

Para Mariam, esse processo pode levar à autossabotagem: “Você começa a se questionar. Eu chegava em casa e pensava: será que mereço o cargo que tenho? Será que faz sentido estar ali?”

Estratégias de enfrentamento

As profissionais entrevistadas sugerem caminhos:

  1. Denúncia formal: “Não deixe essas situações passarem. Informe seu gestor”, orienta Mariam.
  2. Redes de apoio: “Tenha um plano e mantenha comunidades de apoio. Mulheres não competem, se ajudam”, afirma Carolina.
  3. Preparação constante: “Leia sobre o mercado em que atua, amplie sua visão. Demonstrar preparo e confiança influencia a forma como você é percebida”, conclui Ana Fontes.

A pesquisa da Todas Group e Nexus revela que 56% das lideranças femininas acreditam que uma das atitudes mais importantes que homens poderiam tomar é interromper falas machistas de outros colegas. No entanto, apenas 35% das mulheres afirmam já ter sido defendidas por um homem em situações de preconceito de gênero.

O caminho para a igualdade exige não apenas mudanças individuais, mas transformações estruturais nos ambientes corporativos.