Além da Candidatura: A Complexa Agenda de Lula para 2026
O ano de 2026 se apresenta como um dos mais desafiadores da carreira política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A busca por um quarto mandato presidencial é apenas a ponta do iceberg de uma agenda repleta de obstáculos estruturais, políticos e econômicos. Lula retoma as atividades oficiais após o recesso de fim de ano enfrentando um Congresso resistente, a saída de ministros-chave para as eleições, disputas no Supremo Tribunal Federal (STF) e a pressão de temas sensíveis como segurança pública e a relação com os Estados Unidos sob Donald Trump.
Renovação Ministerial e a Batalha por São Paulo
Uma das primeiras tarefas de Lula será gerir a saída de ao menos 20 ministros que devem deixar o governo até abril de 2026 para se desincompatibilizar e disputar eleições. O principal nome é o do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, cujo desejo é deixar o cargo ainda em fevereiro para se dedicar à campanha de reeleição de Lula. No entanto, a vontade do presidente é que Haddad dispute o governo de São Paulo, visando um palanque forte no estado mais rico do país e um contraponto ao atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), uma das principais vozes da oposição.
Outros nomes importantes na saída são Rui Costa (Casa Civil), que concorrerá ao Senado pela Bahia, e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), que busca uma vaga na Câmara pelo Paraná. A indefinição permanece sobre Guilherme Boulos (Secretaria-Geral). “Eu sei que tem uma enxurrada de ministros que vão sair. Eu não vou impedir ninguém de sair. Vou apenas torcer para os que saírem sejam eleitos”, afirmou Lula em dezembro.
A Sombra da Idade e a Disputa pelo Quarto Mandato
Lula já declarou publicamente sua intenção de concorrer à reeleição, posicionando-se como a barreira contra um retorno da “extrema direita” ao poder. Embora lidere as pesquisas de intenção de voto, sua idade – completou 80 anos em 2025 – tornou-se um argumento utilizado por críticos, como a revista britânica The Economist, que defendeu que ele não deveria concorrer. A publicação comparou o risco de declínio cognitivo ao caso do ex-presidente americano Joe Biden.
No campo opositor, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) gerou descontentamento no Centrão, que preferiria o governador Tarcísio como candidato. Tarcísio, por sua vez, descartou publicamente a Presidência, focando na reeleição em São Paulo, embora as duas opções ainda sejam consideradas politicamente.
Os Açores no Congresso: Messias no STF e a Pauta de Segurança
A relação com o Congresso será um teste constante. Um dos primeiros embates é a indicação do advogador-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF. A escolha, que desagradou o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), precisa ser formalizada e aprovada em sabatina, exigindo articulação intensa do Planalto para garantir os 41 votos necessários.
Na segurança pública, dois projetos são prioritários: o Marco Legal de Combate ao Crime Organizado (Lei Antifacção), aprovado no Senado e que retorna à Câmara, e a PEC da Segurança Pública, que busca integrar as forças de segurança do país. O tema é visto como central para o eleitorado e será um dos eixos do debate eleitoral.
Relação Turbulenta com os EUA de Donald Trump
A diplomacia será outro campo de desafio. A relação com os Estados Unidos, sob Donald Trump, tem sido marcada por atritos. Em 2025, o governo americano impôs tarifas de até 50% em produtos brasileiros, sancionou autoridades (como o ministro do STF Alexandre de Moraes, posteriormente retirado da lista) e revogou vistos de membros do Judiciário e do governo Lula.
O ponto mais crítico recente foi o ataque e captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas. Lula, que não reconhece a vitória eleitoral de Maduro mas é contra intervenções, condenou veementemente a ação, classificando-a como uma violação do direito internacional que ameaça a estabilidade regional. Apesar dos contatos telefônicos e do encontro breve dos dois presidentes, cerca de 63% das exportações brasileiras para os EUA ainda sofrem com as tarifas elevadas.
Veto à Dosimetria e os Desafios da Economia
No front interno, Lula já sinalizou que vetará o chamado PL da Dosimetria, projeto que reduz penas de condenados por atos golpistas, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Se o veto for derrubado pelo Congresso, o tema ainda pode ser questionado no STF.
Economicamente, o governo navega entre indicadores positivos, como baixo desemprego e crescimento do PIB, e desafios estruturais. A opção por gastos elevados para estimular a economia pressiona a dívida pública, que pode atingir 82,5% do PIB ao final do mandato, segundo projeções do Tesouro Nacional. Para conter a inflação, o Banco Central mantém os juros em patamares altos, o que, por sua vez, restringe o crédito e o crescimento do setor produtivo. Até novembro de 2025, as contas do governo registraram um rombo de R$ 83,8 bilhões.
Em suma, 2026 será um ano que testará não apenas a popularidade de Lula nas urnas, mas sua capacidade de governabilidade, articulação política e resiliência diante de uma conjuntura complexa e multifacetada.
Fonte: G1