Em depoimento à Polícia Federal em dezembro de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro detalhou a crise que levou à liquidação do Banco Master, revelando encontros com o governador Ibaneis Rocha (MDB-DF) e afirmando que o modelo de negócios da instituição era totalmente baseado no Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Vorcaro confirmou uma série de reuniões com Ibaneis Rocha entre 2024 e 2025, tanto em sua residência quanto na casa do governador em Brasília. Segundo o banqueiro, o assunto discutido foi a proposta de venda do Master ao Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo distrital. Ibaneis, por sua vez, admitiu os encontros, mas negou ter tratado de qualquer assunto relacionado à operação BRB/Master, declarando à PF: “Entrei mudo e saí calado”.
O depoimento, obtido pela colunista Andréia Sadi do g1, revela que Vorcaro atribuiu os problemas do banco a mudanças nas regras do FGC, que ele afirmou terem sido pressionadas por outros bancos. “O plano de negócio do Master era 100% baseado no FGC e não havia nada de errado, porque essa era a regra do jogo”, disse o executivo. Ele afirmou que o banco enfrentava uma crise de liquidez, mas cumpriu todos os compromissos até 17 de novembro, um dia antes da liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC).
O BC determinou a liquidação por falta de liquidez e indícios de fraude em uma operação de venda de carteiras de crédito ao BRB no valor de R$ 12,2 bilhões. O BRB havia injetado R$ 16,7 bilhões no Master entre 2024 e 2025. O Ministério Público vê indícios de gestão fraudulenta nessas transferências, com mais de R$ 12 bilhões usados para comprar carteiras de crédito sem lastro.
Questionado sobre suas relações políticas, Vorcaro confirmou apenas os encontros com Ibaneis e autoridades do BC, negando ter usado influência de ministros ou parlamentares para viabilizar a venda. “Se tivesse tantas relações políticas quanto é sugerido (…) não estaria atualmente cumprindo prisão domiciliar”, declarou, referindo-se às medidas cautelares que cumpre com tornozeleira eletrônica.
Sobre sua prisão no Aeroporto de Guarulhos em 17 de novembro, Vorcaro disse ter sido pego de surpresa, negou estar fugindo e afirmou que havia avisado o BC sobre a viagem. Ele disse que iria a Dubai para discutir a venda do Master ao grupo Fictor.
Em acareação com Paulo Henrique Bezerra, ex-presidente do BRB, realizada no mesmo dia, Vorcaro afirmou que o Master não desembolsou nenhum real para adquirir uma carteira de créditos da empresa Tirreno, avaliada em R$ 6 bilhões. Ele descreveu a transação como um “registro contábil”, sem saída efetiva de dinheiro. Bezerra, por sua vez, declarou à PF que sabia que o dinheiro “não existia fisicamente” e manteve a operação para evitar uma quebra em sequência da Tirreno e do Master.
A liquidação do Master deve resultar no maior pagamento da história do FGC, com estimativa de R$ 41 bilhões para cobrir aplicações de até R$ 250 mil por investidor.