O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um momento de tensão e divergências internas, impulsionado por uma combinação de fatores: a queda contínua nas pesquisas de popularidade e a polêmica medida de aumento do imposto de importação para produtos eletrônicos.
Uma pesquisa Quaest divulgada em fevereiro revela um cenário de divisão na avaliação do governo, com 49% de desaprovação e 45% de aprovação. A estabilidade em patamares baixos aumenta a pressão sobre o Palácio do Planalto, situação agravada pelo avanço nas intenções de voto de nomes como Flávio Bolsonaro.
O episódio que catalisou a crise interna foi a publicação de uma norma do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em conjunto com a Fazenda, que elevava a alíquota do imposto de importação para itens como celulares e computadores. A medida, que veio à tona por meio da imprensa, gerou repercussão imediata e negativa no Congresso e nas redes sociais.
A reação foi tão intensa que forçou o governo a recuar. Após dias de forte pressão, o Planalto decidiu revogar o aumento do imposto. O caso expôs fissuras na comunicação e na coordenação governamental, com ministros e auxiliares de Lula afirmando ter tomado conhecimento da medida apenas pela oposição ou pela mídia. Nos bastidores, iniciou-se uma busca pelo “pai da criança” responsável pela proposta.
Inicialmente, ministros palacianos defenderam a revogação para conter o desgaste político. No entanto, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, argumentou que o impacto nos preços seria pequeno e que a medida tinha caráter regulatório para proteger a indústria nacional. Apesar da defesa técnica, o custo político se mostrou alto demais, levando ao recuo.
Este não foi o único recuo do governo em meio à queda de popularidade. Pouco antes, o Palácio do Planalto havia revogado um decreto que incluía três hidrovias da Amazônia no Programa Nacional de Desestatização. A decisão ocorreu após fortes protestos de povos indígenas e pressão de setores da base aliada, liderados pelo ministro Guilherme Boulos (PSOL), que alertaram para o risco de um desgaste semelhante ao das manifestações de junho de 2013.
A tramitação do chamado PL Antifacção também gerou atritos. O texto aprovado pelo Congresso divergia do negociado pelo governo no Senado, mas o Planalto optou por apresentá-lo como uma vitória para não se opor a um projeto de combate ao crime organizado, deixando correções para o futuro.
O governo ainda lida com o desgaste acumulado durante o Carnaval em relação aos evangélicos. Agora, busca um trunfo para reverter a queda nas pesquisas e aposta na aprovação do fim da escala de trabalho 6×1. No entanto, mesmo nessa pauta há disputa interna, com embates sobre a autoria da proposta entre o governo e o presidente da Câmara, Arthur Lira.
O conjunto de crises revela um governo em modo defensivo, tentando administrar divergências internas e conter sangrias de popularidade enquanto busca uma agenda positiva para se restabelecer politicamente.