A eliminação do chamado “imposto do luxo” na Argentina está provocando uma revolução nos preços de veículos de alto valor no país. A Porsche se destacou ao anunciar uma redução de US$ 128 mil (aproximadamente R$ 667 mil) no valor do 911 Turbo S, um dos modelos mais emblemáticos da marca.

A medida, aprovada pelo Senado argentino no final de fevereiro junto com uma reforma trabalhista, extinguiu uma alíquota de 18% que incidia sobre bens de valor elevado, incluindo automóveis, embarcações e aeronaves. Na prática, devido à incidência conjunta com outros tributos, essa taxa podia chegar a 21,95%.

O imposto era aplicado sobre o valor do veículo ao chegar à concessionária, afetando, na realidade, carros com preço final superior a 105 milhões de pesos argentinos (cerca de R$ 385 mil). A isenção oficial entra em vigor em 1º de abril, mas diversas montadoras já anteciparam os ajustes.

Reação em cadeia no mercado

A Audi também anunciou cortes significativos, reduzindo em US$ 37 mil (R$ 192 mil) o preço do SUV esportivo RS Q8, que passou a custar US$ 250 mil (R$ 1,3 milhão). A Ford revisou os valores do Mustang GT, que caiu de US$ 90 mil para US$ 65 mil (uma economia de US$ 25 mil ou R$ 132 mil), e do Mustang Dark Horse (mesma versão vendida no Brasil), com redução de US$ 97 mil para US$ 75 mil.

Marcas como Toyota, Lexus e Mercedes-Benz também estão oferecendo descontos médios de 15% em sua linha de veículos. Segundo especialistas, parte dos descontos é ampliada por acordos comerciais recentes entre a Argentina e os Estados Unidos, beneficiando modelos importados, como os da Ford.

Contexto econômico e expectativas

Sebastián M. Domínguez, contador especializado em tributação, explica que o “imposto do luxo” foi criado como ferramenta de política monetária durante períodos de grande disparidade entre o dólar oficial e o paralelo, com alíquotas que chegaram a 50% no governo de Cristina Kirchner. “Havia receio de fuga de dólares, mas hoje já não existe essa diferença tão grande”, afirma.

A expectativa é que a medida aqueça o mercado automotivo argentino, que enfrenta vendas estagnadas desde o final de 2025 – situação que chegou a impactar a produção de veículos no Brasil devido à redução da demanda argentina. A associação de fabricantes de automóveis do país (Adefa) vê a eliminação do tributo como um avanço que corrige distorções de preços, reorganiza o sistema tributário e devolve previsibilidade ao setor.

Domínguez acredita que o estímulo às vendas e o consequente aquecimento da economia podem compensar uma eventual queda na arrecadação. Enquanto algumas marcas como Alfa Romeo, BMW, Land Rover e Volvo ainda não divulgaram novos preços, a movimentação já indica uma reconfiguração significativa do segmento de automóveis de luxo na Argentina.