O Conselho Fiscal dos Correios alertou a diretoria da estatal, ainda em 2023, sobre o risco iminente de falta de dinheiro para manter as operações. Os apontamentos internos, obtidos pela TV Globo, mostram que os alertas sobre a insustentabilidade das contas foram recorrentes ao longo de mais de um ano antes de uma recomendação formal ser emitida.

Em agosto de 2024, o conselho emitiu o documento “Risco de Insuficiência Orçamentária”, orientando as áreas de finanças e negócios a priorizarem ações para “garantir a continuidade das operações da estatal”. A ata registra que o esforço era essencial para “proteger os ativos da organização”.

A situação financeira, no entanto, só se agravou. O prejuízo, que foi de R$ 633 milhões em 2023, saltou para R$ 2,6 bilhões em 2024. No acumulado de janeiro a setembro de 2025, o déficit já atingia R$ 6 bilhões, com projeção de fechar o ano em R$ 10 bilhões negativos.

Queda de receita e alertas ignorados

Os documentos revelam que o Conselho Fiscal já identificava problemas estruturais em outubro de 2023. Na ocasião, apontou a folha de pessoal como a maior despesa, a dificuldade de cortar custos no curto prazo e que os resultados dependiam de projeções otimistas de receita.

As receitas, entretanto, despencaram. Em 2024, ficaram R$ 2 bilhões abaixo do esperado. Em 2025, a queda se intensificou: até setembro, foram R$ 13,2 bilhões, contra R$ 14,8 bilhões no mesmo período de 2024 e R$ 15,1 bilhões em 2023.

Plano de recuperação e inconsistências contábeis

Diante da crise, o governo apresentou um plano em maio de 2025, prevendo economia de até R$ 1,5 bilhão via medidas como PDV e suspensão de férias. O plano foi considerado insuficiente, já que as despesas continuaram subindo e as receitas, caindo.

Um novo plano de reestruturação, mais robusto, foi então elaborado, incluindo demissão de 15 mil funcionários, venda de imóveis e um empréstimo de R$ 20 bilhões. A expectativa é que uma proposta de empréstimo de R$ 12 bilhões, com aval do Tesouro, seja aprovada para pagar funcionários e fornecedores.

Paralelamente, uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) apontou inconsistências no balanço de 2023. Segundo a análise, os Correios deixaram de contabilizar R$ 1 bilhão em despesas prováveis com ações trabalhistas, mascarando o prejuízo real. O déficit, que oficialmente foi de R$ 633 milhões, deveria ter sido de R$ 1,6 bilhão. A CGU recomendou a republicação do balanço.

Posicionamento dos Correios

Em nota, os Correios afirmaram que a nova gestão, empossada há três meses, realizou um diagnóstico detalhado e encaminhou aos órgãos de governança. A empresa disse estar implementando um Plano de Reestruturação com foco no equilíbrio financeiro e na modernização, mantendo acompanhamento permanente com os órgãos supervisores.