O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) propôs alterações significativas no Conselho de Paz criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma conversa telefónica de 50 minutos realizada nesta segunda-feira (26). A estratégia brasileira visa evitar uma negativa directa ao convite norte-americano, enquanto procura redefinir os termos de participação no novo órgão internacional.

Segundo nota oficial divulgada pelo governo brasileiro, Lula sugeriu a Trump duas modificações principais no estatuto do conselho:

  • Que o mandato do órgão se limite exclusivamente às questões humanitárias e à situação na Faixa de Gaza
  • Que seja garantido um assento permanente para a Palestina nos debates do conselho

Fontes diplomáticas brasileiras ouvidas pelo G1 consideram a “amplitude da cobertura” proposta por Trump como um dos pontos mais críticos. O estatuto norte-americano prevê que o conselho actue para “assegurar paz duradoura em áreas afectadas ou ameaçadas por conflito”, o que, na prática, permitiria intervenções em qualquer região do mundo conforme a interpretação dos EUA.

Preocupações Estruturais

Auxiliares do presidente Lula identificam outros problemas fundamentais na proposta de Trump:

  • Presidência fixa: Ao contrário do sistema rotativo da ONU, o comando seria exercido exclusivamente pelos Estados Unidos
  • Governança por assinatura: O estatuto exige pagamento de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,5 bilhões) para assento permanente
  • Falta de diálogo: Trump já sinalizou que não aceitaria emendas ao texto, exigindo que os países apenas “aderissem” a um contrato pronto

Diplomatas brasileiros classificam o modelo como uma “paz mercantil”, onde o peso das decisões estaria condicionado ao aporte financeiro dos membros. Para o governo brasileiro, um conselho que nasce sob presidência fixa dos EUA e com apoio explícito de apenas um lado do conflito é visto com profunda preocupação.

Posição Brasileira: Reforma ou Renúncia

A avaliação da diplomacia brasileira é clara: o Brasil só participará se as bases do conselho forem renegociadas desde o início, com o país actuando como formulador das regras e não como mero membro figurante. O governo observa que o debate sobre a entrada no colegiado poderá intensificar-se no segundo semestre, tornando-se tema central na Assembleia Geral da ONU em Setembro.

Paralelamente, o governo Lula enxerga na movimentação em torno do conselho de Trump uma oportunidade estratégica para discutir a paralisia das Nações Unidas no actual contexto geopolítico. A estratégia desenhada por fontes diplomáticas será a de convocar outros líderes para uma reforma que democratize o sistema da ONU, alertando que, sem mudanças, o mundo será governado por modelos unilaterais como o proposto por Trump.

Diplomatas interpretam o plano norte-americano como um atestado da falência do sistema multilateral actual, destacando que o novo órgão só ganha tração porque o Conselho de Segurança da ONU não consegue resolver crises como a de Gaza. Há ainda uma leitura pragmática de que, se o conselho de Trump conseguir interromper o conflito — algo que a ONU não foi capaz —, isso serviria como prova definitiva da falência institucional das Nações Unidas.