A escalada do conflito no Oriente Médio, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, está a gerar ondas de choque nos mercados globais, com reflexos diretos na economia brasileira. O aumento da tensão geopolítica está a pressionar as cotações do petróleo e do dólar, fatores que podem influenciar a trajetória da inflação e, consequentemente, o calendário de redução da taxa de juros pelo Banco Central.

Impacto nos preços: petróleo e dólar em alta

O barril de petróleo ultrapassou a marca de US$ 82, atingindo o seu valor mais elevado desde o início de 2025. Esta subida está diretamente ligada ao conflito e ao encerramento do Estreito de Ormuz pelo Irã, uma rota crítica para o transporte de crude. Analistas projetam que os preços podem continuar a subir nos próximos meses, o que se refletirá no custo dos combustíveis no Brasil.

Paralelamente, o dólar registou valorização, negociando acima de R$ 5,16. A moeda norte-americana mais forte tende a encarecer produtos e insumos importados, adicionando outra camada de pressão inflacionária. A combinação de petróleo e dólar em alta eleva os custos de produção e logística em setores como transportes, indústria e agronegócio.

Reflexos na política monetária e nas expectativas

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central define a taxa de juros (Selic) com base nas projeções de inflação para os próximos anos. A autoridade monetária tem como objetivo atingir uma meta de inflação de 3% até setembro de 2027.

Economistas alertam que o choque nos preços do petróleo e do dólar, se persistente, pode “contaminar” estas projeções inflacionárias. Isto porque o impacto pleno das decisões de política monetária demora entre 6 a 18 meses a materializar-se na economia. Se o conflito se prolongar, o seu efeito inflacionário pode levar o Copom a adotar um ritmo mais cauteloso na redução dos juros, limitando a intensidade e a duração do ciclo de cortes.

Análises do mercado financeiro

Antes da eclosão do conflito, o mercado projetava o início dos cortes da Selic em março, com uma redução de 15% para 14,5% ao ano, seguida de quedas contínuas nos anos seguintes.

Especialistas avaliam agora diferentes cenários:

  • Rafaela Vitoria (Banco Inter): Argumenta que um aumento pontual do petróleo não força um reajuste imediato nos combustíveis pela Petrobras. Um eventual aumento de 10% na gasolina teria impacto limitado na inflação, e o dólar abaixo de R$ 5,50 não é motivo de grande preocupação. Mantém a previsão de corte da Selic para 14,5% em março, mas admite que o Copom pode começar com um ritmo mais fraco (25 pontos base) ou postergar o início.
  • Leonardo Costa (ASA): Salienta que o impacto final depende da duração e intensidade do conflito. No Brasil, a política de preços da Petrobras tende a retardar o repasse da alta internacional. Um aumento de 10% na gasolina adicionaria 0,20% a 0,25% ao IPCA anual. A persistência de preços elevados do petróleo pode elevar as projeções de inflação doméstica.
  • Fabiano Zimmermann (ASA): Acredita que o conflito não deve alterar o plano do BC de iniciar os cortes em março. No entanto, se a crise se prolongar, pode interromper a valorização do real e alterar o patamar do petróleo, limitando a magnitude do ciclo de flexibilização monetária. Este cenário já começa a refletir-se na curva de juros.

Conclusão

A guerra no Oriente Médio introduziu um novo elemento de incerteza na economia global e brasileira. Enquanto o impacto imediato nos preços dos combustíveis pode ser amortecido pelas políticas da Petrobras, a persistência do conflito e a consequente pressão sobre o petróleo e o dólar são variáveis críticas que o Banco Central irá monitorizar de perto. A trajetória dos juros no Brasil nos próximos meses estará, em parte, condicionada pela evolução deste cenário geopolítico.