A Polícia Federal deflagrou uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master, com buscas em endereços ligados ao fundador e CEO da instituição, Daniel Vorcaro, e seus familiares. O caso, que envolve a maior quebra bancária da história do país em impacto para o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), expõe uma extensa rede de ligações do banqueiro com figuras de peso da política e do Judiciário brasileiros.
As investigações apontam para uma suposta fraude na venda de carteiras de crédito do Master para o Banco de Brasília (BRB), no valor de R$ 12,2 bilhões, operação que antecedeu a liquidação do banco pelo Banco Central em novembro. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o caso como potencialmente a “maior fraude bancária” do país.
O que chama a atenção de especialistas, além do prejuízo bilionário, é a capacidade de um banco de porte médio estabelecer conexões profundas em Brasília. “É a capacidade de um sujeito que tem um banco pequeno de botar braço para tudo quanto é lado num ambiente político e institucional e contaminar isso”, analisa o economista Cleveland Prates Teixeira.
Conexões Políticas
No centro da teia política estão nomes como Ciro Nogueira (PP), ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, e Antonio Rueda (União Brasil), apontados como intermediários nas negociações frustradas de venda do Master para o BRB. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), sancionou lei para autorizar a aquisição, vetada posteriormente pelo BC.
O banco também contratou ex-ministros de alto escalão. Ricardo Lewandowski, ex-STF e ex-Justiça de Lula, teve o Master como cliente. Guido Mantega, ex-Fazenda de Lula, atuou como consultor. Henrique Meirelles, ex-presidente do BC e ex-Fazenda de Temer, integrou um comitê consultivo do banco. O próprio ex-presidente Michel Temer (MDB) foi contratado como mediador para a venda ao BRB.
As doações eleitorais também traçam vínculos. Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro e alvo da operação, foi o maior doador pessoa física das campanhas de Jair Bolsonaro (R$ 3 milhões) e Tarcísio de Freitas (R$ 2 milhões) em 2022.
Conexões Jurídicas
As ligações se estendem ao sistema de Justiça. A PF encontrou no celular de Vorcaro um contrato de R$ 129 milhões com o escritório da advogada Viviane Barsi de Moraes, esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. O acordo previa pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões por três anos por uma atuação “onde fosse necessário”.
O ministro Dias Toffoli, do STF, viajou em um jatinho particular na companhia de Augusto de Arruda Botelho, ex-Secretário Nacional de Justiça de Lula que voltou a advogar tendo um diretor do Master como cliente. A viagem ocorreu na véspera de Toffoli ser sorteado relator de um recurso da defesa de Vorcaro. Dias depois, o ministro colocou o inquérito do caso sob siglo e o trouxe para o STF sob sua relatoria.
Quem é Daniel Vorcaro?
Natural de Belo Horizonte, o banqueiro de 42 anos assumiu o controle do então Banco Maxima no final dos anos 2000, rebatizando-o como Master. Sua estratégia foi focar na captação via CDBs com juros altíssimos, atraindo 1,6 milhão de investidores. Vorcaro, conhecido por uma vida de luxo e grandes gastos, sempre se declarou um “outsider” do mercado financeiro, vítima de preconceito.
O caso do Banco Master segue em investigação sob sigilo no STF, com repercussões que abalam o sistema financeiro e expõem as complexas relações entre poder econômico, político e judiciário no Brasil.