A cidade de São Paulo, que completa 472 anos, é o coração do Estado mais rico do Brasil. Com um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 3,5 trilhões em 2024, a economia paulista supera a de países como a Argentina e é quase o triplo da segunda colocada, o Rio de Janeiro. Mas essa posição de destaque é resultado de uma transformação histórica profunda.
Até meados do século XIX, São Paulo era uma província periférica, com pouca relevância econômica ou demográfica. O primeiro Censo, em 1872, registrou apenas 30 mil habitantes na capital, contra 270 mil no Rio de Janeiro. A mudança, descrita por historiadores como um fenômeno raro na história econômica mundial, começou a se desenhar com a superação de um grande obstáculo geográfico: a Serra do Mar.
Por séculos, a “muralha” íngreme isolou o fértil planalto paulista do litoral, encarecendo drasticamente o transporte de mercadorias. A solução inicial veio com uma mudança política. Após a descentralização do poder no Império em 1834, a província de São Paulo criou um sistema de pedágios para financiar a melhoria das estradas. A arrecadação, que chegou a representar quase metade do orçamento provincial, permitiu a construção de vias como a Estrada da Maioridade (1846), barateando o custo logístico.
Foi essa infraestrutura que permitiu ao café, então cultivado apenas perto do litoral no Vale do Paraíba, avançar rumo ao interior fértil, em regiões como Campinas e Piracicaba. A grande revolução, porém, chegou em 1867 com a primeira ferrovia, a São Paulo Railway, ligando Jundiaí ao Porto de Santos. O comboio de trilhos e a expansão do consumo global do grão consolidaram o café como a alavanca da riqueza paulista.
O fim do tráfico transatlântico de escravizados em 1850 criou uma nova demanda por mão de obra. São Paulo passou a incentivar a imigração europeia, movida por razões econômicas e por um projeto de “embranquecimento” da população. A Hospedaria de Imigrantes do Brás recebeu cerca de 3 milhões de pessoas entre o século XIX e os anos 1970. Esses novos habitantes não só trabalharam nas lavouras, mas também dinamizaram a economia local, criando um mercado consumidor e dando origem às primeiras indústrias de bens de consumo.
A crise de 1929 e a subsequente dificuldade de importar produtos industrializados deram um impulso definitivo à industrialização paulista. Políticas de proteção à indústria nacional adotadas a partir dos anos 1930 pelo governo Vargas beneficiaram o parque industrial que já se formava no Estado. Nas décadas seguintes, especialmente a partir dos anos 1970, a economia paulista diversificou-se, com a erradicação de cafezais e o incentivo a outros setores, como petróleo e uma indústria mais complexa.
Acadêmicos debatem as razões mais profundas do sucesso paulista. Para alguns, a província teria sido “poupada” do patrimonialismo ibérico mais acentuado em outras regiões, criando uma institucionalidade mais favorável à iniciativa capitalista autônoma. Para outros, como o sociólogo Jessé Souza, a explicação está no domínio simbólico. A elite paulista, após a derrota na Revolução de 1932, teria construído uma narrativa poderosa de superioridade – resgatando os bandeirantes, promovendo uma ideia de meritocracia e racismo – para legitimar seu poder político e econômico perante o resto do país.
Seja por fatores institucionais, econômicos ou simbólicos, o fato é que São Paulo consolidou-se como a locomotiva do Brasil. Sua trajetória, da superação da Serra do Mar ao domínio industrial, é a história de como uma província periférica construiu, passo a passo, a maior economia da federação.