Surpresa, confusão, preocupação, alívio, otimismo e muita incerteza. Essas foram algumas das emoções vividas pelos venezuelanos em 3 de janeiro, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que seu país assumiria o controlo da indústria petrolífera venezuelana.
“O negócio do petróleo na Venezuela tem sido um fracasso”, disse Trump, prometendo trazer as maiores companhias petrolíferas americanas para investir bilhões e “começar a gerar lucro para o país”.
Esta semana, o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, tornou-se a autoridade americana de mais alto escalão a visitar a Venezuela em mais de duas décadas, reunindo-se com a presidente interina Delcy Rodríguez.
Como os EUA estão a vender o petróleo da Venezuela
Em 6 de janeiro, Trump anunciou que o governo de Rodríguez entregaria entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo aos EUA. O petróleo seria vendido a preços de mercado, com os EUA a controlar a receita para garantir o seu uso “em benefício do povo da Venezuela e dos EUA”.
O Departamento de Energia dos EUA confirmou o início das negociações, num mecanismo que seria aplicado indefinidamente. A estatal PDVSA também confirmou as negociações, comparando-as ao acordo existente com a Chevron.
As empresas de comercialização Vitol e Trafigura foram escolhidas para executar as vendas iniciais, adquirindo o petróleo a um desconto significativo face ao preço do Brent.
Um mecanismo de curto prazo
O secretário de Estado Marco Rubio explicou que a venda era urgente porque a Venezuela estava a ficar sem capacidade de armazenamento e sem dinheiro para despesas essenciais, como pagar a polícia e profissionais de saúde.
Rubio garantiu que se trata de um mecanismo temporário, destinado a estabilizar o país e garantir que as receitas beneficiem o povo venezuelano, não o sistema corrupto do passado. O objetivo é migrar para uma “indústria petrolífera normal”.
Para onde vai o dinheiro?
As primeiras vendas, avaliadas em 500 milhões de dólares, já ocorreram. O dinheiro não está sob controlo direto das autoridades venezuelanas, mas sim dos EUA.
Segundo o economista Asdrúbal Oliveros, o dinheiro é depositado numa conta do Banco Central da Venezuela no JP Morgan, sendo depois transferido para uma conta no Catar, que funciona como um fundo fiduciário entre os EUA e o governo venezuelano.
Rubio explicou que esta solução evita que o dinheiro seja congelado por credores da dívida venezuelana em bancos americanos, permitindo que chegue às autoridades venezuelanas para operações essenciais.
Como o dinheiro está a ser gasto
Os fundos estão a ser alocados através de leilões realizados pelo Banco Central da Venezuela (BCV). Até 30 de janeiro, a distribuição era a seguinte: 80% para setores prioritários (alimentos e medicamentos), 15% para outros setores produtivos e 5% para pessoas físicas.
Rubio afirmou que o processo envolve a apresentação de um orçamento mensal pelo governo venezuelano, com compromissos de usar uma parte considerável para comprar medicamentos e equipamentos diretamente dos EUA. Os EUA estão a desenvolver um mecanismo de auditoria para verificar como o dinheiro é gasto.
Preocupações com a transparência
A falta de transparência é uma das maiores preocupações. David L. Goldwyn, consultor do Atlantic Council, questiona quem aprova a distribuição, que critérios são usados e que supervisão existe.
Oliveros acredita que o sistema de leilão precisa de ser aprimorado para se tornar mais transparente, com regras mais claras.
Até ao momento, o BCV já leiloou aproximadamente 800 milhões de dólares. Se o ritmo se mantiver, poderá chegar a 1,4 mil milhões no primeiro trimestre de 2026, um sinal positivo para a estabilização cambial e redução da inflação.
Perspetivas e desafios
Oliveros vê progresso face ao cenário anterior de sanções e pagamentos opacos. A perspetiva é de maior estabilidade cambial, redução da inflação e melhores condições para o setor privado.
Goldwyn reconhece os efeitos anticorrupção e económicos positivos, mas alerta para os desafios à medida que o processo for ampliado. “É muito cedo para saber se este é um sistema eficaz para estabilizar a economia. Eles precisam de muito mais receita para alcançar a estabilização”, conclui.