Uma investigação do g1 revelou que 336 homens suspeitos ou condenados por feminicídio ou tentativa do crime são alvos de mandados de prisão e permanecem em liberdade. Entre eles, há ordens de prisão pendentes há anos, criminosos entre os mais procurados do Brasil e reincidentes.
Para chegar a esse número, a apuração durou dois meses e envolveu duas frentes simultâneas: a consulta direta ao Banco Nacional de Mandados de Prisão (BNMP), sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), e a tentativa de obter uma lista de mandados diretamente da entidade.
Como os dados foram extraídos da base do CNJ
Os mandados de prisão são públicos e podem ser consultados por qualquer cidadão no portal do BNMP. No final do ano passado, havia no banco do CNJ um total de 307.738 mandados de prisão ativos, à espera de cumprimento.
Para identificar quais tratavam de feminicídio, a equipe usou ferramentas de programação para criar um código que automatizou o download dos documentos. A base de dados é tão grande que o processo manual levaria muito mais tempo. O código acessou 293.419 mandados, respeitando o limite de extração de grandes volumes de dados imposto pelo CNJ.
Em seguida, com o auxílio de planilhas e scripts em Python, a equipe identificou os mandados que continham no texto a tipificação penal de feminicídio — prevista no artigo 121, § 2º, inciso VI, do Código Penal. Esses mandados filtrados foram somados aos documentos enviados diretamente pelo CNJ, excluindo-se os casos duplicados. O cruzamento resultou na identificação inicial de 352 mandados relacionados ao crime.
Checagem de mandados, um a um
Todos os mandados localizados foram verificados individualmente pelas repórteres. Nessa etapa, foi possível obter informações detalhadas sobre cada caso: data do crime, local, nomes dos envolvidos e das vítimas e andamento do processo.
Antes da publicação, a equipe fez uma checagem final para retirar do levantamento as ordens de prisão que haviam sido cumpridas durante o período de apuração. Após esse processo, restaram os 336 mandados que compõem a reportagem.
As informações foram organizadas para consultar o tipo de prisão (temporária, preventiva, após a condenação), o ano em que foi decretada, nome e CPF dos suspeitos e ano de início do processo, servindo de base para as histórias contadas na reportagem principal.