Um emprego promissor pode rapidamente se transformar em um pesadelo quando se depara com um chefe tóxico. Histórias como a de Maya, que trabalhava em uma agência de relações públicas no Reino Unido, são mais comuns do que se imagina. Ela relata uma gerente que estabelecia padrões impossíveis e humilhava publicamente a equipe com insultos como “você é burro?” e “este trabalho é uma porcaria”. O comportamento ultrapassava a gestão de desempenho, tornando-se ataques pessoais, como deixar a foto de uma “noiva gorda” na mesa de uma colega que contratou um personal trainer.

Maya conta que, alguns meses depois, percebeu que seus colegas choravam quase diariamente e a equipe adoeceu frequentemente devido a problemas de saúde mental, levando-a a pedir demissão. Pesquisas indicam que uma em cada três pessoas já deixou um emprego por causa de um ambiente tóxico ou de um chefe ruim.

Tóxico ou apenas um mau chefe?

Nem todo mau chefe é necessariamente tóxico. Ann Francke, do Chartered Management Institute, explica que muitos líderes são “chefes acidentais” – promovidos por habilidades técnicas, mas sem competência de liderança. Seu mau comportamento muitas vezes resulta de inexperiência, não de má intenção.

Um chefe tóxico, no entanto, é diferente. “Deliberadamente não demonstra empatia e, muitas vezes, também não tem autoconhecimento”, afirma Francke. Eles podem sabotar a equipe, apropriar-se do trabalho alheio, liderar pelo medo e ter expectativas irreais. O impacto vai além de um conflito de personalidade, gerando ansiedade que prejudica a saúde mental e o desempenho.

“Se você sente um nó no estômago na segunda-feira de manhã, se encolhe pelos cantos para evitar confrontos ou tem medo de se manifestar em reuniões por receio de represálias, isso é toxicidade”, destaca a especialista.

Relatos de assédio e humilhação

Outros casos ilustram a gravidade do problema. Josie descreve uma chefe que a mantinha sob vigilância constante, com ligações e mensagens das 7h às 22h, mesmo em dias de folga, além de tirar seus projetos e excluí-la de almoços em grupo. Hannah, que trabalhava em uma rede de supermercados, foi humilhada por sua chefe ao ser obrigada a tirar um suéter em um evento corporutivo em novembro, por usar a mesma peça que um convidado. “Me senti uma idiota. Foi humilhante”, relata.

Estratégias para enfrentar a situação

Pedir demissão nem sempre é uma opção imediata. Para quem precisa lidar com a situação, Ann Francke oferece algumas recomendações:

  • Conte para alguém: Encontre um mentor fora da sua linha hierárquica direta para conselhos honestos e independentes.
  • Confronto formal: Marque uma reunião e exponha suas preocupações com calma, apresentando exemplos específicos. Se colegas também forem afetados, considerem uma abordagem conjunta.
  • Proteja-se: Estabeleça limites claros, priorize seu bem-estar e crie um espaço fora do trabalho para se distanciar e recuperar a perspectiva.
  • Use o RH com cautela: Recorra ao departamento de Recursos Humanos apenas se houver histórico de lidar com comportamentos inadequados, não de ignorá-los.
  • Medidas drásticas: Se o comportamento for abusivo ou um risco reputacional, pode ser necessário um processo formal de denúncia, embora isso possa gerar temor de represálias.

O tema ganhou até representação no cinema com o filme Socorro!, onde Rachel McAdams interpreta uma funcionária presa em uma ilha com seu chefe tóxico. A atriz, que já passou por situações similares, aconselha: “Tente uma demissão silenciosa, se possível, e, caso contrário, pratique um pouco de meditação”.

Reconhecer a toxicidade e agir para proteger a saúde mental é crucial em um mercado onde o bem-estar no trabalho deve ser prioridade.