Com 61% dos profissionais a planear uma mudança de emprego em 2026, segundo uma pesquisa da Robert Half, a Inteligência Artificial (IA) surge como uma ferramenta poderosa para criar ou aperfeiçoar currículos de forma estratégica. Especialistas destacam que, usada com ética e critério, a tecnologia pode otimizar a apresentação profissional, mas alertam para a necessidade de honestidade e revisão cuidadosa.
O Papel da IA na Triagem de Candidatos
As plataformas de recrutamento utilizam sistemas de IA para comparar currículos com as descrições das vagas, realizando uma triagem automática. A Gupy, por exemplo, cruza requisitos como formação, experiência, habilidades e localização. Jhenyffer Coutinho, especialista da plataforma, salienta que a completude das informações é crucial: 35% dos currículos não têm habilidades cadastradas e 64% apresentam descrições de experiência com menos de 200 caracteres, o que prejudica o ranqueamento.
“Quanto mais detalhes você coloca, mais elementos a tecnologia tem para encontrar no seu perfil”, explica Coutinho. A IA ajuda a organizar e adequar as informações para um melhor resultado nesta fase, mas o currículo deve refletir a história real do candidato.
Riscos de Tentar “Driblar” os Sistemas
Práticas como a inserção de palavras-chave invisíveis para “fisgar” algoritmos são arriscadas. Juliana Maria, especialista em recrutamento, adverte que estas tentativas de burlar o sistema podem levar à desclassificação e prejudicar a reputação do candidato. “Quando a informação não é verdadeira, a inconsistência aparece na entrevista”, afirma.
Joaquim Santini, pesquisador da vida organizacional, é direto: “Se o candidato tenta enganar o sistema, ele deve ser desqualificado imediatamente.” A mentira, segundo ele, é insustentável a médio prazo e coloca em risco futuras oportunidades.
A Necessidade de Preparo das Empresas
Santini aponta também uma lacuna no lado das empresas: muitos recrutadores ainda não têm conhecimento suficiente sobre IA para conduzir entrevistas que identifiquem inconsistências. Ele defende processos seletivos robustos, que unam triagem automatizada a entrevistas técnicas e comportamentais bem estruturadas, conduzidas por gestores capacitados.
Passo a Passo para um Currículo Eficaz com IA
Marcos Santos, especialista em IA, recomenda plataformas como ChatGPT, Gemini e NotebookLM. A chave é carregar o currículo real e a descrição da vaga, pedindo apenas sugestões de melhoria — nunca a criação de informações novas. Uma revisão minuciosa é essencial para evitar “alucinações” da IA, como a adição de habilidades inexistentes.
Diretrizes principais dos especialistas:
- Defina o objetivo: Vaga, área e nível de senioridade almejados.
- Use um prompt-modelo: Peça à IA um modelo baseado no seu contexto (ex: transição de carreira) e preencha com dados reais.
- Solicite ajustes, não invenções: Carregue seu currículo atual e a descrição da vaga para pedir sugestões de melhoria.
- Teste versões diferentes: Crie 2 a 3 versões (mais descritiva, mais objetiva) e teste em plataformas distintas.
- Preencha todos os campos: Nos portais de candidatura, informações como cidade e escolaridade são essenciais para não ser eliminado automaticamente.
- Revise linha por linha: Busque exageros, inconsistências e confira a precisão de todas as informações.
- Seja transparente com idiomas: Declare apenas o nível real de domínio. Se usar IA para tradução, considere um rodapé informando o facto.
- Evite truques: Nunca use texto invisível ou códigos ocultos.
- Destaque o aprendizado contínuo: Inclua interesse genuíno por tecnologia e desenvolvimento, se for o caso.
- Prepare a entrevista: Tenha exemplos práticos que sustentem cada ponto do currículo.
“O currículo não é da IA. É da pessoa. A IA ajuda a tornar a história mais clara e direta”, resume Marcos Santos. No final, os recrutadores procuram autenticidade e coerência entre o que está no papel e a experiência real do candidato.
Fonte: G1