Comissário de Bordo: Uma Carreira de Altos Voos no Brasil
A profissão de comissário de bordo, também conhecida como aeromoça ou aeroviário, tem ganhado destaque nas redes sociais, especialmente após relatos de profissionais que atuam em companhias internacionais. No Brasil, a carreira é regulamentada e oferece uma trajetória sólida, com foco na segurança e no atendimento ao passageiro. Este guia detalha os requisitos, salários, rotina e perspectivas para quem deseja seguir este caminho.
1. Requisitos para se Tornar Comissário de Bordo
Para exercer a função no Brasil, é necessário atender a uma série de exigências estabelecidas pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac):
- Ter no mínimo 18 anos de idade.
- Possuir ensino médio completo.
- Estar em dia com as obrigações militares (para homens entre 18 e 45 anos) e com a Justiça Eleitoral.
- Ser proficiente na língua portuguesa.
- Possuir Certificado Médico Aeronáutico (CMA) de segunda classe, que ateste aptidão física e psicológica.
- Concluir o treinamento inicial de comissário de voo, em programa aprovado pela Anac.
- Cumprir, no mínimo, 5 horas de voo supervisionadas.
- Ser aprovado em avaliação prática que demonstre habilidades para atuar a bordo.
Desde janeiro de 2024, a Anac não exige mais a conclusão do curso em escola de aviação específica nem a realização do exame teórico para obter a licença. No entanto, a maioria das companhias aéreas ainda considera a formação completa um requisito básico em seus processos seletivos.
Habilidades adicionais são valorizadas:
- Inglês ou Espanhol: Frequentemente exigidos, especialmente para atendimento a passageiros estrangeiros. Em algumas seleções, o inglês é eliminatório.
- Libras (Língua Brasileira de Sinais): Tem se tornado um diferencial importante, refletindo a busca por maior inclusão no setor aéreo.
Empresas como a Latam costumam exigir experiência prévia em atendimento ao cliente. A Gol pede conhecimento intermediário de inglês ou espanhol, enquanto na Azul o domínio de outros idiomas é um diferencial, mas não obrigatório.
2. Curso de Formação: É Necessário?
Apesar da mudança na regulamentação da Anac, a formação em uma escola de aviação continua sendo um caminho quase indispensável para ingressar no mercado. Os cursos têm duração média de 3 a 5 meses, com custos que variam entre R$ 2 mil e R$ 7 mil.
A grade curricular prepara o aluno para situações reais, incluindo:
- Simulações de evacuação e combate a incêndio.
- Treinamento de sobrevivência na selva e no mar.
- Disciplinas de primeiros socorros, meteorologia e regulamentos da aviação civil.
- Técnicas de atendimento e serviço a bordo.
3. Salário Inicial e Benefícios
O piso salarial inicial para comissários no Brasil é de R$ 2.694,79, conforme a Convenção Coletiva de Trabalho 2024/2025 do Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA). Algumas empresas pagam acima desse valor:
- Latam: R$ 2.874,52
- Gol: R$ 2.806,39
- Azul: Não possui acordo com valor mínimo definido.
Além do salário-base, os profissionais recebem adicionais por horas de voo (diurnas e noturnas), compensação orgânica, vale-alimentação, pagamento por sobreaviso e remuneração por tempo em solo. As diárias para hospedagem e alimentação fora da cidade de origem são um direito obrigatório.
Segundo especialistas do setor, a remuneração total costuma variar entre R$ 4 mil e R$ 6 mil mensais, dependendo da empresa, escala e tempo de serviço.
Os benefícios mais comuns incluem:
- Passagens aéreas com desconto para o colaborador e familiares.
- Plano de saúde e odontológico.
- Seguro de vida.
- Vale-transporte.
- Auxílio-creche.
- Treinamentos periódicos e planos de carreira.
Para quem almeja atuar no exterior, companhias como Emirates, Qatar Airways e Etihad oferecem salários entre US$ 2.500 e US$ 3.500 (aproximadamente R$ 15 mil a R$ 21 mil), geralmente incluindo moradia e transporte. Os processos, no entanto, são rigorosos e exigem inglês fluente e alta capacidade de adaptação intercultural.
4. Rotina de Trabalho e Legislação
A jornada do comissário é regulada pela Lei do Aeronauta (Lei nº 13.475/2017) e pelo RBAC-117 da Anac, que estabelecem limites para garantir segurança e bem-estar.
Principais pontos da legislação:
- Escalas: Devem ser divulgadas com, no mínimo, 5 dias de antecedência.
- Folgas: Garantia de pelo menos 10 folgas mensais de 24 horas, sendo duas delas em um final de semana consecutivo.
- Jornada: Pode variar de 9 a 18 horas diárias, conforme o tipo de operação (doméstica, internacional).
- Limites de Voo: Variam conforme a aeronave. Por exemplo, em aviões a jato, o limite é de até 80 horas mensais e 800 anuais.
Na prática, o profissional trabalha em ciclos de voo ao longo do mês, retornando à sua base operacional entre eles. Esses parâmetros são baseados em estudos de fadiga para assegurar que a tripulação esteja sempre em condições físicas e mentais adequadas para operar.
5. Principais Desafios da Profissão
A carreira vai muito além do glamour das viagens. Os desafios incluem:
- Rotina intensa e horários irregulares.
- Afastamento da família e amigos.
- Necessidade de manter a compostura e cordialidade sob pressão.
- Responsabilidade pela segurança a bordo, exigindo preparo para agir em emergências médicas, turbulências ou situações de indisciplina.
“Os comissários passam por treinamentos constantes e precisam estar prontos para tomar decisões em segundos”, explica Elisabete Antunes, diretora dos comissários da Azul. A profissão exige equilíbrio emocional, empatia e um compromisso genuíno com o serviço e a segurança.
6. Oportunidades de Crescimento
A progressão na carreira não se limita às funções dentro da cabine. Com experiência e qualificação, o comissário pode avançar para posições como:
- Chefe de Cabine
- Instrutor de Treinamento
- Examinador Credenciado pela Anac
Há também possibilidades de atuação em áreas correlatas, como operações em solo, segurança de voo ou gestão de serviços. O crescimento é impulsionado pelo treinamento contínuo, desenvolvimento de liderança e experiência em diferentes tipos de operação, incluindo rotas internacionais.
7. Conselhos para Quem Quer Seguir na Carreira
Para ingressar e prosperar como comissário de bordo, especialistas e gestores das companhias aéreas destacam:
- Invista em formação técnica sólida: A base de conhecimento em segurança e atendimento é fundamental.
- Desenvolva habilidades interpessoais e emocionais: Empatia, paciência e capacidade de trabalhar em equipe são essenciais.
- Mantenha-se atualizado: O setor aéreo é dinâmico e exige aprendizado constante.
- Tenha vocação para servir: “O atendimento verdadeiramente marcante vem do coração”, afirma Elisabete Antunes, da Azul.
- Domine idiomas: Inglês e espanhol são frequentemente requisitados e abrem portas, especialmente para voos internacionais.
A carreira de comissário de bordo oferece uma experiência profissional única, com a chance de conhecer novas culturas, desenvolver habilidades em um ambiente multicultural e desempenhar um papel crucial na segurança das operações aéreas.
Fonte: G1 – Comissário de bordo: veja salário inicial e como funciona carreira no Brasil