Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, o preço do petróleo ultrapassou a barreira dos US$ 100 por barril, alcançando o patamar mais elevado desde fevereiro de 2022, quando teve início a guerra entre Rússia e Ucrânia.

Esta alta ocorre num contexto de tensões geopolíticas crescentes, que envolvem países e rotas estratégicas para a produção e transporte de petróleo e gás. O risco de fechamento do Estreito de Ormuz, uma das principais vias marítimas globais para o escoamento desta commodity, elevou os temores de restrições na oferta mundial e nos preços dos seus derivados.

No Brasil, para além dos impactos indiretos sobre os setores de transporte, indústria e agronegócio, a alta do petróleo pode exercer pressão sobre os preços dos combustíveis e da energia. Analistas foram consultados para avaliar se este movimento pode resultar em reajustes significativos para o consumidor final.

Petróleo sobe, mas gasolina e diesel seguem quase estáveis

Apesar da alta expressiva do petróleo no mercado internacional, os preços dos combustíveis registaram apenas um leve aumento no Brasil nos últimos dias.

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), o preço médio da gasolina passou de R$ 6,28 para R$ 6,30 entre a última semana de fevereiro e 7 de março, enquanto o diesel aumentou de R$ 6,03 para R$ 6,08 no mesmo período.

Especialistas explicam que, embora a alta do petróleo no mercado internacional tenha o potencial de gerar reajustes maiores, estes não costumam ocorrer de forma imediata. A política de preços atual da Petrobras, implementada desde 2023, permite amortecer parte das oscilações externas no curto prazo.

Com o abandono da política de paridade de importação (PPI), a estatal passou a adotar um modelo que considera um conjunto de fatores, como cotações internacionais, custos de produção e condições do mercado interno. Desta forma, os ajustes são feitos de maneira gradual, sem seguir automaticamente as variações do mercado global.

Como o petróleo influencia o preço dos combustíveis

O petróleo é a principal matéria-prima na produção de gasolina e diesel. Sendo negociado globalmente em dólar, a valorização do barril ou da moeda americana tende a elevar os custos de produção.

Contudo, o petróleo não é o único componente do preço final. Segundo a Petrobras, o valor pago pelo consumidor também inclui impostos, a mistura obrigatória de biocombustíveis (como etanol anidro na gasolina e biodiesel no diesel) e os custos de transporte, distribuição e revenda.

No caso da gasolina, a parcela referente à Petrobras representa cerca de 28,7% do preço final. Considerando o preço médio nacional de R$ 6,30 por litro, isso equivale a aproximadamente R$ 1,81. O restante corresponde a tributos federais e estaduais, à mistura de etanol e aos custos da cadeia de distribuição.

No diesel, a participação da Petrobras é maior, representando cerca de 46% do preço final. Num valor médio de R$ 6,08 por litro, isso corresponde a cerca de R$ 2,80.

Há limites para segurar os preços?

Analistas destacam que, embora a política atual permita adiar parte dos repasses, esta estratégia tem limites operacionais e financeiros.

“Se o petróleo permanecer em níveis elevados por um período prolongado, a Petrobras tenderá a reajustar os preços para recuperar as suas margens”, afirma Marcos Bassani, analista de investimentos e sócio da Boa Brasil Capital.

Outro fator de pressão é a dependência brasileira de importações, especialmente de diesel. Se a diferença entre os preços internos e os internacionais se tornar muito significativa, os importadores podem reduzir a oferta no país, criando um desequilíbrio no mercado.

Para Johnny Martins, vice-presidente do SERAC, conflitos em regiões produtoras são um catalisador clássico para a alta global do petróleo e para o aumento da volatilidade nos mercados. “Qualquer risco de interrupção na produção, no transporte ou na exportação gera insegurança. E, quando há insegurança, o preço sobe”, afirma.

Como o petróleo é cotado em dólar, altas no barril ou na moeda americana elevam o custo dos combustíveis e impactam toda a cadeia produtiva, em especial o transporte e a logística. Um diesel mais caro resulta num aumento do custo do frete, o que pode encarecer uma vasta gama de produtos e serviços para o consumidor final.

Na avaliação de João Abdouni, analista da Levante Inside Corp, a Petrobras pode continuar a adiar parte dos repasses enquanto aguarda uma estabilização dos preços internacionais. “A empresa tende a adotar uma postura cautelosa, e os reajustes podem ocorrer nos próximos dias caso os preços se mantenham em patamares elevados”, conclui.