O petróleo venezuelano voltou ao centro das atenções globais no início de 2026, após eventos geopolíticos envolvendo os Estados Unidos. O país afirma possuir cerca de 300 bilhões de barris de reservas “comprovadas”, representando quase um quinto do total mundial, embora especialistas questionem esse número.

A riqueza petrolífera está intrinsecamente ligada à Faixa Petrolífera do Orinoco, considerada a maior acumulação de hidrocarbonetos do planeta, e aos campos do Lago de Maracaibo. No entanto, há uma diferença crucial entre o potencial e a produção real, já que grande parte do óleo venezuelano é pesado, ácido e caro para extrair e refinar.

O que torna a geologia venezuelana tão especial?

A posição única da Venezuela no encontro de três placas tectônicas – a Sul-Americana, a do Caribe e a de Nazca – criou as condições perfeitas para a geração e armazenamento de petróleo em escala colossal.

“As placas tectônicas se empurram umas contra as outras. A borda da placa sul-americana está sendo engolida sob a placa do Caribe, como uma máquina limpa-neve empilhando rocha com quilômetros de espessura”, explica o geólogo Philip Prince, da Virginia Tech. “Esse choque tectônico enterra a rocha geradora, forma o petróleo e depois o óleo migra para novas camadas de sedimentos.”

Este processo criou bacias sedimentares profundas e sistemas de falhas que atuam como “armadilhas” naturais, capturando o petróleo ao longo de milhões de anos. A Faixa do Orinoco funciona como o destino final desta migração, o ponto onde enormes volumes de óleo convergiram.

Os ingredientes primordiais: vida pré-histórica e rochas excepcionais

As reservas começaram a se formar há centenas de milhões de anos, muito antes da existência humana.

“No subsolo venezuelano existe uma espessa sequência de rochas sedimentares ricas em matéria orgânica”, detalha Prince. “Elas contêm pequenos organismos – plâncton e algas – que são os ingredientes iniciais do petróleo.”

Este material orgânico, acumulado em antigos pântanos e fundos oceânicos, foi soterrado e, sob altíssimas pressões e temperaturas ao longo de eras geológicas, transformou-se em petróleo. Um fator decisivo foi a presença de uma rocha geradora do período Cretáceo de altíssima qualidade, combinada com um arenito que atua como um reservatório extremamente eficiente.

Um recurso abundante, mas complexo

As mesmas forças geológicas que criaram esta riqueza também moldaram as características do óleo venezuelano, tornando-o extrapesado e com alto teor de enxofre.

“O petróleo pesado – como o da Venezuela – é especialmente importante para a produção de diesel e de combustível de aviação”, afirma Mauro Ratto, da Plenisfer Investments. “Não é bom nem ruim; tem usos diferentes.”

A história da exploração, que começou em 1914 com o campo de Mene Grande, já revelou cerca de 75 bilhões de barris de reservas recuperáveis convencionais. No entanto, o futuro da indústria continua a depender da superação dos desafios técnicos e econômicos para aproveitar a totalidade do potencial que a rara combinação geológica do país proporcionou.