Diante de estimativas que preveem aumento no consumo global de carne, Luís Fernando Laranja Fonseca, veterinário e ex-pesquisador da USP, defende que métodos inovadores de criação de gado são a solução para minimizar o impacto ambiental da pecuária na Amazônia.
A estabilidade de um cargo concursado e uma carreira acadêmica internacional não foram suficientes para mantê-lo distante da realidade do desmatamento. Em 2002, aos 35 anos, pediu demissão e mudou-se com a família para Alta Floresta (MT), na linha de frente da destruição florestal.
“Minha leitura era de que precisaríamos desenvolver negócios associados à conservação. Se não conseguíssemos gerar bons negócios que valorizassem a floresta em pé, seria difícil reduzir drasticamente o desmatamento”, afirma Fonseca.
Após seis anos de imersão na região, onde fundou a empresa de castanha-do-pará Ouro Verde, percebeu que o impacto era pequeno diante da magnitude do problema. Decidiu, então, focar no coração da questão: a pecuária.
Em 2019, criou a holding Caaporã, que hoje administra 20 mil hectares em seis fazendas nos estados do Mato Grosso, Tocantins e Bahia, aplicando um modelo de pecuária intensiva e regenerativa.
O método que desafia a pecuária extensiva
O sistema começa com a recuperação de pastagens degradadas. Em vez de capim pobre, são introduzidas leguminosas como o amendoim forrageiro, que fixam nitrogênio no solo naturalmente, reduzindo a necessidade de fertilizantes químicos.
Árvores nativas e exóticas são plantadas para fornecer sombra, reduzindo o estresse térmico do gado. O resultado é um animal que atinge o peso de abate em cerca de dois anos – metade do tempo no modelo tradicional.
“Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano”, resume Fonseca, referindo-se à fermentação entérica, principal fonte de emissões do setor.
Impacto em números
Enquanto cada quilo de carcaça no método tradicional emite cerca de 35 kg de CO₂ equivalente, no modelo da Caaporã a emissão cai para aproximadamente 20 kg – uma redução superior a 40%.
O Brasil é o quinto maior emissor de metano do mundo, com o agronegócio respondendo por 75,6% dessas emissões em 2023. Dados do MapBiomas mostram que a área de pastagem na Amazônia aumentou mais de 363% entre 1985 e 2023, atingindo 59 milhões de hectares.
“Se replicado em larga escala, esse modelo intensivo permitiria liberar milhões de hectares de pastagens de baixa produtividade para restauro florestal”, defende o veterinário.
Obstáculos e oportunidades
Fonseca reconhece os desafios: alto custo inicial para recuperação do solo, acesso limitado a crédito e, principalmente, resistência cultural dos produtores.
“O produtor fala: ‘Eu sei fazer? Sei. Dinheiro eu tenho? Tenho. Mas não quero fazer'”, relata sobre a dificuldade em abandonar o modelo extensivo.
Para viabilizar economicamente o modelo, sua empresa desenvolve uma metodologia própria para venda de créditos de carbono em parceria com a Verra, maior certificadora global do setor. Parte da produção já é adquirida pela Minerva Foods, uma das maiores exportadoras de carne do país.
O futuro da carne
Com projeções de aumento de 10% no consumo mundial de carne bovina até 2033, Fonseca é cético quanto às alternativas de laboratório no curto prazo.
“No curto prazo, nos próximos 10 anos, não temos sinalização de que essas carnes vão ocupar espaço significativo”, avalia, citando alto custo e tempo necessário para adaptação do consumidor.
Para acadêmicos que acompanham seu trabalho há duas décadas, como André Pereira de Carvalho da FGV, o modelo representa um caminho viável: “Produz um alimento que contribui para a segurança alimentar e, ao mesmo tempo, tem uma contribuição com serviços ambientais”.
Enquanto isso, a pressão internacional por sustentabilidade cresce. Dados do aplicativo Do Pasto ao Prato indicam que apenas 54% da carne bovina proveniente da Amazônia vendida no Brasil tem desempenho adequado de sustentabilidade – nas exportações, esse percentual sobe para 80%, reflexo da maior cobrança de compradores estrangeiros.
O caminho traçado por Fonseca sugere que a solução para a pecuária na Amazônia não está em eliminá-la, mas em transformá-la radicalmente – unindo ciência, negócios e conservação em um mesmo pasto.