No mundo todo, uma parcela significativa do eleitorado demonstra disposição para se informar sobre candidatos e até mesmo seguir indicações feitas por chatbots como o ChatGPT e o Gemini. Esta realidade preocupa especialistas e representa um desafio complexo para os reguladores eleitorais.

Exemplos internacionais ilustram a tendência. Na Holanda, uma pesquisa da Universidade de Amsterdã revelou que 10% dos eleitores estavam propensos a seguir recomendações de voto de chatbots, com outros 13% sendo evasivos. A influência é ainda mais marcante entre jovens de 18 a 34 anos, onde 17% admitiram essa propensão. No Chile, um estudo apontou que 27% dos eleitores utilizaram essas plataformas durante o pleito, percentual que chegou a 44% em grupos de maior poder aquisitivo.

Uma pesquisa do MIT em 2024, com 2.400 eleitores norte-americanos, quantificou o poder de persuasão. Apoiadores de Donald Trump que interagiram com um modelo de IA favorável a Kamala Harris tornaram-se ligeiramente mais propensos a apoiá-la, um deslocamento 3,9 pontos maior numa escala de 100 – efeito cerca de quatro vezes superior ao impacto medido de anúncios políticos tradicionais.

No entanto, os estudos também revelam problemas de precisão. Na pesquisa holandesa, a maioria das sugestões dos chatbots focava em apenas dois partidos, independentemente da pergunta. Além disso, ao serem questionados sobre posicionamentos partidários, algumas respostas foram incorretas. O estudo do MIT apontou que o ChatGPT 3.5 apresentou 30% de informações políticas incorretas (percentual que caiu para 14% na versão 4).

“Em eleições acirradas, esse tipo de conteúdo pode influenciar os resultados”, alerta Claes Vreese, professor da Universidade de Amsterdã. Fabro Steibel, diretor-executivo do ITS Rio, complementa: “Os chatbots hoje são lugares de confiança, como bares e igrejas. É de se esperar que políticos usem essas ferramentas.”

No Brasil, uma pesquisa da Ipsos mostra que 79% dos usuários de IA no país a utilizam para aprendizado, incluindo temas políticos. Testes da DW Brasil com ChatGPT, Gemini e Grok sobre as eleições de 2026 revelaram diferentes graus de intervenção: enquanto o ChatGPT descreveu posições e citou candidatos bem posicionados, Gemini e Grok foram mais incisivos, apontando diretamente “melhores opções” de voto para perfis de eleitores.

O especialista Delmiro Dantas Campos Neto, da Abradep, destaca que a Justiça Eleitoral brasileira dispõe de instrumentos para enfrentar distorções no ambiente digital, incluindo resoluções sobre deepfakes e transparência no uso de IA. No entanto, plataformas que geram conteúdo personalizado e não universalmente acessível desafiam as normativas atuais.

“O papel do TSE não é controlar conteúdo, mas garantir a igualdade de condições entre os candidatos”, argumenta Fabro Steibel. Neide Cardoso de Oliveira, coordenadora de um grupo do MPF, aponta que o caminho durante o período eleitoral será tratar o tema diretamente com as plataformas, observando, por exemplo, as fontes que alimentam as respostas dos chatbots.