Estudos internacionais revelam que uma parcela significativa do eleitorado está disposta a seguir recomendações de chatbots como ChatGPT e Gemini durante processos eleitorais. Essa tendência, mais acentuada entre jovens, levanta preocupações sobre desinformação e desafia autoridades regulatórias em diversos países, incluindo o Brasil.

Pesquisa da Universidade de Amsterdã, durante eleições na Holanda, mostrou que 10% dos eleitores estariam propensos a seguir indicações de voto de chatbots, percentual que sobe para 17% entre jovens de 18 a 34 anos. No Chile, 27% dos eleitores consultaram essas plataformas no último pleito.

Estudo do MIT com 2.400 eleitores norte-americanos demonstrou que chatbots podem influenciar preferências políticas. Apoiadores de Donald Trump que interagiram com IA favorável a Kamala Harris moveram-se 3,9 pontos em sua direção numa escala de 100 – efeito quatro vezes maior que o impacto médio de anúncios políticos em eleições anteriores.

“Em eleições acirradas, esse tipo de conteúdo pode influenciar os resultados”, alerta Claes Vreese, professor da Universidade de Amsterdã.

Problemas de precisão e viés

As plataformas apresentam sérias limitações. Na Holanda, 80% das recomendações focavam em apenas dois partidos, independentemente da pergunta. Quando questionados sobre posicionamentos partidários, os chatbots forneceram respostas incorretas.

Pesquisa do MIT identificou que o ChatGPT 3.5 apresentou 30% de informações políticas incorretas (versão 4 reduziu para 14%). “Não é surpresa certo volume de informações incorretas. Os chatbots são programados para oferecer alguma resposta, ainda que não seja a mais acurada”, explica Fabro Steibel, diretor-executivo do ITS Rio.

Integração no processo eleitoral

Especialistas concordam que os chatbots se tornaram parte do ecossistema eleitoral. “São lugares de confiança, como bares e igrejas”, compara Steibel. “Haverá uma corrida pela atenção do eleitor, e essa é mais uma ferramenta.”

No Brasil, pesquisa Ipsos mostra que 79% dos usuários de IA a utilizam para aprendizado, incluindo política. Testes da DW Brasil com ChatGPT, Gemini e Grok sobre eleições de 2026 revelaram diferentes níveis de intervenção: enquanto o ChatGPT descreveu posições políticas, Gemini e Grok indicaram diretamente “melhores opções” de voto.

Desafios regulatórios no Brasil

O Brasil dispõe de instrumentos para enfrentar distorções digitais. “Resoluções sobre deepfakes, remoção de desinformação e transparência no uso de IA foram adotadas”, destaca Delmiro Dantas Campos Neto, da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político.

Porém, plataformas que oferecem conteúdo personalizado – diferente de postagens públicas em redes sociais – representam novo desafio. “O papel do TSE não é controlar conteúdo, mas garantir igualdade de condições entre candidatos”, argumenta Steibel.

Neide Cardoso de Oliveira, coordenadora do MPF, aponta que durante períodos eleitorais, o tema deverá ser tratado diretamente com as plataformas. “Um ponto crucial serão as fontes que alimentarão as respostas dos chats”, avalia.