O banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, foi preso novamente pela Polícia Federal em São Paulo, em uma operação que desmantelou um esquema criminoso de alta complexidade. A investigação, denominada Compliance Zero, apura fraudes financeiras bilionárias, a manutenção de uma milícia privada para intimidação e espionagem, e a corrupção de servidores do Banco Central.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou as prisões preventivas, fundamentando a decisão na necessidade de garantir a ordem pública e econômica, evitar a destruição de provas e coação de testemunhas.
Os principais alvos e suas funções no esquema
- Daniel Vorcaro: Líder máximo, acusado de comandar a organização criminosa, ocultar patrimônio bilionário e ordenar atos de violência e espionagem.
- Fabiano Zettel: Cunhado e operador financeiro, responsável por intermediar pagamentos e estruturar contratos simulados para lavagem de dinheiro.
- Luiz Phillipi Mourão (‘Sicário’): Líder operacional da milícia privada ‘A Turma’, coordenava monitoramento ilegal, acesso a dados sigilosos e atos de intimidação.
- Marilson Roseno da Silva: Policial federal aposentado que integrava a estrutura de vigilância, utilizando sua experiência para coletar informações sensíveis.
O funcionamento da ‘milícia privada’
A investigação detalha que ‘A Turma’ atuava como um braço armado e de inteligência a serviço de Vorcaro. Seu modus operandi incluía:
- Acesso ilegal a sistemas: Invadiram bases sigilosas da Polícia Federal, Ministério Público Federal, FBI e Interpol para obter informações sobre investigações, autoridades e jornalistas.
- Monitoramento e vigilância: Acompanhamento presencial e telemático de alvos, incluindo o jornalista Lauro Jardim, do jornal ‘O Globo’.
- Ordens de violência: Diálogos revelam planos de Vorcaro para agredir fisicamente Jardim, com a intenção explícita de ‘quebrar todos os dentes’ do profissional em um assalto forjado.
- Remuneração: Luiz Phillipi recebia cerca de R$ 1 milhão por mês de Vorcaro para custear as atividades do grupo.
Corrupção no Banco Central
O esquema também corrompeu servidores do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, que ocupavam cargos de chefia. Eles atuavam como ‘consultores informais’ do Banco Master, fornecendo:
- Orientações estratégicas a Vorcaro para reuniões com a presidência do BC.
- Revisão prévia e sugestão de alterações em documentos que o banco enviaria ao próprio Departamento de Supervisão onde trabalhavam.
- Antecipação de informações sensíveis sobre movimentações financeiras monitoradas pelo BC.
Em troca, recebiam vantagens indevidas. Belline tinha propostas de contratação simulada para justificar propinas, enquanto Paulo Sérgio teve custeadas despesas de uma viagem familiar para a Disney e Universal em Orlando (EUA).
Ocultacao patrimonial bilionária
Mesmo após ser solto em 2025, Vorcaro continuou ocultando recursos. A PF identificou e bloqueou mais de R$ 2,2 bilhões em uma conta vinculada ao seu pai, Henrique Moura Vorcaro, na corretora REAG (CBSF DTVM). A defesa do pai nega a titularidade da conta.
Os investigadores contrastam a ocultação desse montante com o rombo de quase R$ 40 bilhões deixado pelo Banco Master no mercado, atualmente coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
Medidas cautelares e crítica à PGR
Além dos presos, outros investigados cumprirão medidas como uso de tornozeleira eletrônica, proibição de contato com envolvidos e entrega do passaporte. Paulo Sérgio e Belline estão proibidos de acessar as dependências do BC.
Na decisão, o ministro André Mendonça criticou a Procuradoria-Geral da República (PGR) por não reconhecer a urgência do caso, destacando que a demora em analisar o pedido de prisão da PF se mostrava ‘extremamente perigosa para a sociedade’ diante do robusto quadro probatório.