Gustavo Catunda e Robert Rosselló, o casal por trás do perfil 2depais com mais de 2,5 milhões de seguidores, descobriram um desfalque superior a R$ 500 mil em valores de campanhas publicitárias que não foram repassados pela agência Hello Group, que os representava. A situação veio à tona após meses de atrasos justificados pela empresa e uma orientação constante para que os criadores não mantivessem contato direto com as marcas.
O contrato estabelecia que 70% do valor das campanhas fosse para os influenciadores, ficando a agência com 30%. No entanto, ao entrarem em contato diretamente com as empresas patrocinadoras, o casal recebeu comprovantes de que os pagamentos já haviam sido quitados há meses – valores que a Hello Group alegava ainda não ter recebido.
“Era sempre assim: ‘nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar'”, relatou Robert ao g1, descrevendo uma dinâmica que classificou como “terrorismo psicológico”. A agência mantinha controle total sobre a comunicação e a parte financeira, impedindo o acesso dos criadores aos contratos e comprovantes.
A parceria começou em 2021, quando o perfil ainda era pequeno, e inicialmente funcionou bem. Com o crescimento do 2depais, os atrasos se tornaram frequentes. A situação se agravou no final de 2024, quando campanhas fechadas em novembro ainda não haviam sido pagas no início de 2025, comprometendo a vida financeira da família.
O momento decisivo ocorreu quando a filha do casal estava com meningite e a caminho do hospital receberam o primeiro comprovante de uma marca confirmando que o pagamento havia sido realizado cinco ou seis meses antes. “Ali, a ficha caiu”, disse Gustavo.
Com a documentação reunida, o casal procurou um advogado, que apresentou o caso ao Ministério Público, apontando indícios de apropriação indébita majorada. Em decisão recente, o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes negou o bloqueio de bens da agência por considerar insuficientes as provas, mas determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague a parte dos influenciadores diretamente a eles.
Além do prejuízo financeiro, que inclui uma dívida de mais de R$ 40 mil em impostos devido à emissão de notas fiscais sem o recebimento correspondente, Robert desenvolveu uma doença autoimune ligada ao estresse. “Você passa a achar que qualquer um pode te enganar”, desabafou.
Após o caso se tornar público, outros influenciadores relataram problemas semelhantes com a mesma agência, indicando que não se trata de um episódio isolado. O g1 procurou a Hello Group para comentar as acusações, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
Cuidados contratuais essenciais para influenciadores
A advogada Mayra Mega Itaborahy, especialista em direito digital, destaca a importância de contratos claros entre criadores e agências para evitar situações como essa. Ela recomenda:
- Limitar o poder da agência nas negociações
- Exigir autorização prévia e por escrito do influenciador para qualquer acordo
- Garantir acesso total a todos os contratos feitos em seu nome – incluindo valores, prazos e obrigações
- Estabelecer cláusulas claras sobre prazos de repasse, forma de pagamento, multas e rescisão
“Cláusulas que proíbem totalmente o contato direto entre influenciador e marcas podem ser questionadas juridicamente por ferir princípios de razoabilidade e boa-fé”, alerta a especialista.
Itaborahy explica que o atraso no repasse caracteriza inadimplência e pode gerar juros e multa. Em casos mais graves, pode configurar crime de apropriação indébita. Modelos mais seguros incluem repasses diretos ao influenciador, pagamentos separados ou uso de contas de garantia.
“Contratos, comprovantes e registros escritos são provas essenciais em disputas”, finaliza a advogada, reforçando a necessidade de transparência e organização documental na relação entre criadores de conteúdo e agências.