Um novo capítulo na tensa relação entre os Estados Unidos e a Espanha foi aberto nesta quarta-feira (4), com versões diametralmente opostas sobre uma suposta cooperação militar. A Casa Branca afirmou que o governo espanhol, após as ameaças comerciais do presidente Donald Trump, concordou em cooperar com as forças armadas dos EUA. Minutos depois, o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares, desmentiu a informação de forma categórica.

A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, declarou em entrevista coletiva: “Sobre a Espanha, acho que eles ouviram a mensagem de Trump ontem de forma alta e clara. E entendo que nas últimas horas eles concordaram em cooperar com os militares dos EUA. Sei que as Forças Armadas dos EUA estão coordenando com seus correspondentes na Espanha”.

Vinte minutos após a declaração, o chanceler espanhol rebateu durante entrevista à rádio Cadena SER: “Desminto de forma categórica. Não tinha a mínima ideia do que ela estava dizendo”. Albares foi enfático ao reafirmar a posição do país: “A posição do Governo da Espanha sobre a guerra no Oriente Médio, os bombardeios no Irã e o uso das nossas bases não mudou uma vírgula sequer. Nossa posição de ‘não à guerra’ continua sendo clara e contundente”.

O ministro lembrou que qualquer operação militar deve estar dentro do marco do acordo bilateral e das Nações Unidas: “Há um acordo bilateral, e fora do marco desse acordo não haverá nenhum uso das bases sob soberania espanhola. Qualquer operação precisa estar dentro do marco da ONU”.

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, já havia criticado duramente a postura de Trump na véspera, acusando-o de “brincar de roleta russa” com o destino de milhões de pessoas. “É assim que começam as grandes catástrofes da humanidade. Você não pode jogar roleta russa com o destino de milhões”, afirmou Sánchez em pronunciamento televisionado.

As declarações ocorrem no contexto de uma escalada de tensões entre os dois aliados da OTAN. O ponto de discórdia é a recusa da Espanha em autorizar o uso de suas bases militares – onde os EUA mantêm presença – para lançar ataques contra o Irã. Em resposta, Trump ameaçou na terça-feira (3) cortar todas as relações comerciais com o país europeu.

“A Espanha tem sido terrível. Na verdade, eu disse para cortar todas as relações com a Espanha. A Espanha chegou a dizer que não podemos usar as bases deles”, afirmou o presidente americano, acrescentando de forma provocativa: “Podemos usar a base deles se quisermos. Podemos simplesmente entrar voando e usá-la. Ninguém vai nos dizer que não podemos usá-la”.

O governo espanhol respondeu que os Estados Unidos devem respeitar o direito internacional e os acordos bilaterais com a União Europeia. A Comissão Europeia manifestou solidariedade à Espanha, afirmando estar “pronta” para defender os interesses do bloco.

Enquanto isso, no Oriente Médio, as consequências dos bombardeios continuam a se desdobrar. Um general da Guarda Revolucionária Iraniana advertiu que, se os ataques de Israel e EUA persistirem, “todos os centros econômicos” da região serão alvo de represálias, mencionando especificamente o fechamento do Estreito de Ormuz. O preço do petróleo já reflete a instabilidade, com o barril do Brent superando os 85 dólares pela primeira vez desde julho de 2024.