O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS e apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores de fraudes em aposentadorias, tentou vender ao Ministério da Saúde medicamentos à base de cannabis, testes rápidos de dengue e produtos de nutrição infantil. As tentativas, registradas em mensagens de WhatsApp obtidas pela reportagem, não resultaram em contratos.
O Careca foi recebido em reunião no ministério em janeiro de 2025 por Swedenberger Barbosa (Berger), então secretário-executivo da pasta. A Operação Sem Desconto, que investiga as fraudes no INSS, revelou que o Ministério da Saúde era uma “nova possível área de atuação da organização criminosa”, conforme decisão do ministro do STF André Mendonça.
Três frentes de atuação
1. Maconha medicinal: Através da empresa World Cannabis, o lobista e seus funcionários elaboraram um Termo de Referência (TR) prevendo a compra de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo ministério, por dispensa de licitação, direcionando o negócio para quatro empresas. O Ministério da Saúde afirmou que não compra nem fornece o produto, que não está incorporado ao SUS.
2. Testes de dengue: Em janeiro de 2025, o foco mudou para a venda de testes rápidos da fabricante chinesa Alltest. A equipe do Careca elaborou outro TR para compra sem licitação, prevendo entrega para o pico da doença. Enquanto isso, a secretária de Vigilância em Saúde, Ethel Maciel, assinou nota técnica recomendando o uso dos mesmos testes, mas o ministério informou que os produtos já haviam sido comprados de outra empresa via licitação anterior.
3. Nutrição infantil: O lobista firmou um memorando confidencial com a DAUS Indústria de Alimentos para atuar de forma consultiva na venda de produtos de nutrição infantil à Iquego, no âmbito de um programa do ministério. A proposta foi reprovada pelos colegiados do órgão em agosto de 2025.
Em nota, a assessoria do Planalto, em nome de Berger, afirmou que a reunião com o Careca foi uma “visita institucional” registrada em agenda pública, sem desdobramentos, o que “evidencia sua condução técnica”. A DAUS disse que a parceria foi encerrada e não houve pagamento, pois o projeto não foi aprovado.