Comer é um ato político. Mais do que um simples gesto de nutrição, a comida constitui um poderoso meio de comunicação. Ela transmite valores culturais, sinaliza pertencimento a grupos sociais e expõe, de forma cristalina, as desigualdades estruturais que permeiam tanto a esfera privada quanto a pública.

Segundo a análise de uma historiadora, o percurso que um alimento percorre — do seu cultivo no campo até o momento em que é consumido à mesa — está longe de ser um processo neutro ou meramente técnico. Pelo contrário, ele envolve uma intrincada e complexa cadeia de relações de poder. Estas relações determinam quem planta, quem colhe, quem processa, quem distribui, quem tem acesso e, finalmente, quem consome.

Esta visão amplia radicalmente nossa compreensão sobre a alimentação. Ela deixa de ser vista apenas como uma commodity ou um produto final e passa a ser entendida como um fenômeno social total, onde se entrelaçam questões econômicas, ambientais, de gênero, de raça e de classe. Cada escolha alimentar, portanto, reverbera por toda essa rede, sustentando ou contestando os arranjos de poder nela estabelecidos.

Voltar a cozinhar, reconectar-se com a origem dos ingredientes e questionar a lógica da produção industrial de alimentos são, nesse contexto, atitudes profundamente políticas. Elas representam uma forma de resistência e de reapropriação de um dos atos mais fundamentais da vida humana.