Clientes do Master e Will Bank encontram dívidas fantasmas registradas pelo BRB

Clientes que contrataram empréstimos ou serviços financeiros no Will Bank ou no Banco Master estão sendo surpreendidos por dívidas registradas como ativas ou em atraso no Sistema de Informações de Créditos (SCR) do Banco Central. Os registros foram feitos pelo Banco de Brasília (BRB), mesmo em casos de débitos já quitados ou que nunca existiram.

Como os clientes descobriram o problema

A situação veio à tona quando consumidores consultaram o Registrato, sistema do BC que permite acesso a relatórios com informações pessoais financeiras. Muitos nunca tiveram conta no BRB, mas tiveram seus dados transferidos porque o banco vinha comprando carteiras de crédito do Master desde 2024.

O BRB chegou a anunciar um acordo para comprar o Banco Master em março de 2025, em operação estimada em R$ 2 bilhões, mas a transação foi vetada pelo Banco Central em setembro. Após a liquidação extrajudicial do Master, uma operação da Polícia Federal passou a investigar um suposto esquema de fraudes bilionárias envolvendo carteiras de crédito de baixa qualidade.

Explicação do BRB

Em nota, o BRB informou que, após a liquidação do Will Bank, “deixou de receber do liquidante as informações necessárias sobre o repasse e a quitação das operações de crédito cedidas”. Segundo o banco, pelas regras contratuais, a instituição que originou os créditos é responsável por acompanhar os pagamentos e repassar os valores correspondentes.

“Após a liquidação, esse fluxo não foi retomado ainda pelo liquidante, de modo que o BRB ainda não dispõe de informações suficientes para a baixa das operações. Por essa razão, alguns contratos apareceram como ativos ou inadimplentes no SCR, mesmo já tendo sido pagos no banco de origem”, explicou a instituição.

Impacto direto nos consumidores

A falta de solução já causou prejuízos concretos. Um cliente que falou ao g1 só percebeu o problema ao ter um financiamento imobiliário negado devido à pendência de uma dívida vencida que não reconhecia. As parcelas indevidas, no valor de R$ 10 mil, continuavam sendo cobradas e registradas.

O site Reclame Aqui registra ao menos uma centena de relatos semelhantes apenas em janeiro de 2026, enquanto outras 324 reclamações foram feitas entre agosto e dezembro de 2025. No mesmo período de 2024, houve 76 registros sobre o tema, um aumento de 326%.

O que dizem os especialistas

Segundo Fabio Braga, sócio da área bancária do Demarest, é comum que bancos vendam, transfiram ou cedam carteiras como parte de negociações, mas a transferência de créditos exige que o consumidor seja notificado. “A ideia é que o consumidor saiba a quem deve pagar. Sem essa notificação, a cessão não produz todos os seus efeitos”, explica Pedro Ramunno, professor de direito empresarial do Mackenzie.

Advogados avaliam que o BRB deveria ter feito uma verificação prévia dos dados, principalmente diante de sinais de maior risco nessas carteiras. “O BRB não pode alegar que um terceiro seja responsável pelo registro de dívidas indevidas. O banco precisa fornecer informações corretas ao consumidor”, afirma Gustavo Kloh, professor da FGV Direito Rio.

O que fazer se você for afetado

Especialistas orientam que clientes entrem em contato com a instituição e solicitem, por escrito, o contrato, o valor atualizado, quem está cobrando e qual banco originou a dívida. “Se não há contrato, trata-se de uma cobrança indevida. Nesses casos, o consumidor deve formalizar a reclamação junto à instituição, gerar um protocolo e exigir a interrupção da cobrança”, diz Ramunno.

Se a situação não for resolvida, o ideal é registrar reclamações em órgãos competentes como Procon e Consumidor.gov e, se necessário, avaliar recorrer à Justiça. “Pode ser que a situação seja regularizada com o tempo, mas isso pode demorar ou nem acontecer. Nesses casos, o consumidor pode ter que recorrer à Justiça”, conclui Kloh.