Em depoimentos à Polícia Federal, o ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), Paulo Henrique Bezerra, e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, apresentaram versões distintas sobre as operações bilionárias de compra de carteiras de crédito entre as instituições.

Bezerra afirmou que o BRB só descobriu que os créditos adquiridos eram originados por terceiros, e não pelo Master, após revisão contratual e questionamentos formais. Segundo ele, até abril, o banco operava com a percepção de que comprava ativos originados pelo próprio Master. A mudança ocorreu quando a equipe técnica identificou padrões documentais diferentes, levando a questionamentos sobre a origem real das carteiras.

Em maio, o BRB foi informado de que a empresa Tirreno atuava como consolidadora, reunindo créditos de cerca de vinte correspondentes bancários. Bezerra disse que essa descoberta alterou a avaliação de risco da operação.

Já Daniel Vorcaro sustentou que a mudança no modelo – de venda de créditos próprios para carteiras de terceiros – foi comunicada ao BRB desde o início das negociações. Ele argumentou que a identidade do originador não seria relevante para o risco, que estaria concentrado no tomador final do empréstimo.

Vorcaro reconheceu que o Master enfrentava restrição de liquidez, mas afirmou que o impacto foi administrado com planejamento e substituição de ativos. Ele disse que a operação foi majoritariamente coberta por garantias, restando um saldo residual não formalizado antes da liquidação do banco.

Bezerra relatou que, após análise, cerca de R$ 800 milhões em ativos permaneceram pendentes de precificação por estarem vinculados a ações voláteis. O BRB também elevou a provisão para perda esperada de 10%-15% para cerca de 30%, gerando um deságio significativo na operação.

O ex-presidente do BRB afirmou ainda que o banco deixou de exigir saque imediato de valores ligados à Tirreno por saber que os recursos não existiam, temendo uma quebra em cadeia da empresa e do próprio Master.

As declarações foram colhidas em acareação no âmbito da investigação da PF sobre as operações entre os bancos e a crise de liquidez do Master.