Enquanto Espanha e Alemanha recusam formalmente o convite de Donald Trump para integrar o ‘Conselho da Paz’, o Brasil adota uma estratégia distinta. O governo Lula estuda utilizar o convite como oportunidade para questionar as brechas jurídicas do estatuto proposto pelo ex-presidente dos EUA e, simultaneamente, pressionar por uma reforma urgente do Conselho de Segurança da ONU.

A diplomacia brasileira não tem pressa para dar uma resposta definitiva. A expectativa é de que, em vez de uma negativa direta, o governo envie uma série de pedidos de esclarecimentos técnicos sobre os pontos frágeis do estatuto unilateral elaborado por Washington.

A estratégia, desenhada por fontes do Itamaraty, é transformar o debate sobre o convite de Trump em um argumento forte para defender uma reforma imediata e democrática do sistema multilateral durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro. O Brasil pretende alertar que, sem mudanças profundas, o mundo poderá ser governado por modelos alternativos como o proposto por Trump, que diplomatas classificam como uma “paz mercantil”.

Na avaliação de auxiliares do presidente Lula, a proposta de Trump apresenta problemas estruturais graves: presidência fixa e exclusiva dos EUA (diferente do rodízio da ONU), governança condicionada ao pagamento de US$ 1 bilhão para um assento permanente, e falta total de diálogo, pois os países apenas “aderem” a um contrato pronto, sem espaço para emendas.

Fontes do governo fazem uma leitura pragmática: se o conselho de Trump conseguir interromper o conflito em Gaza — algo que a ONU não foi capaz —, isso servirá como prova da falência institucional das Nações Unidas no formato atual. “Se Trump parar o genocídio em Gaza, ele prova que a ONU não serve mais para nada”, avaliou uma fonte ligada à diplomacia brasileira.

Outro ponto de atrito é a ausência de atores-chave no projeto, como a Autoridade Palestina, que sequer foi consultada. Para o Brasil, um conselho que nasce sob presidência fixa dos EUA e com apoio explícito de apenas um lado do conflito é visto com grande preocupação.

A posição brasileira é clara: o país só participará se as bases do conselho forem renegociadas do zero, atuando como formulador das regras e não como mero membro figurante. O debate sobre o convite deve ganhar força no segundo semestre, tornando-se um tópico central na Assembleia Geral da ONU.