A decisão do governo brasileiro de deixar a administração da embaixada da Argentina em Caracas, na Venezuela, foi motivada pelo cumprimento da missão principal, mas também carrega uma mensagem clara ao governo do presidente argentino, Javier Milei.
Segundo fontes do Itamaraty ouvidas pelo blog, a tarefa de comandar a representação diplomática argentina foi concluída. Uma das principais demandas da operação, iniciada a pedido do governo anterior da Argentina, era garantir a segurança de assessores da opositora venezuelana Maria Corina Machado, que estavam abrigados no local. Desde maio de 2024, esses assessores já não se encontravam mais no prédio.
O Brasil também argumenta que o cenário político em Caracas mudou, com a captura do ex-presidente Nicolás Maduro e a instalação de um governo interino liderado por Delcy Rodriguez, exigindo uma revisão da atuação diplomática brasileira na capital venezuelana.
Por trás desses motivos operacionais, no entanto, há um recado direto à Casa Rosada. Fontes da diplomacia brasileira expressaram irritação com provocações recentes do presidente Milei, um aliado de Donald Trump, que celebrou a captura de Maduro com uma postagem nas redes sociais contendo uma imagem do presidente Lula cumprimentando o líder venezuelano.
“A Argentina pediu nosso socorro para garantir a proteção de sua embaixada. Nós garantimos a inviolabilidade da residência e o atendimento à equipe de Maria Corina Machado durante mais de nove meses. A oposição venezuelana reconheceu nosso compromisso e nosso esforço. É incoerente e injusto, depois disso tudo, o governo Milei vir provocar o Brasil com recados infantis”, desabafou uma fonte.
Outro diplomata lembrou um episódio de maio de 2024, quando o Brasil, por meio da Petrobras, destravou o fornecimento de gás natural à Argentina para evitar um colapso energético no país vizinho. “Socorrer e ajudar para depois ter de ler ataques diretos à nossa presidência. Já fizemos nossa parte na embaixada deles. O resto é de responsabilidade deles. Vale o recado a Milei”, afirmou.
Apesar do tom de descontentamento, diplomatas reforçam que as relações de Estado entre Brasil e Argentina seguem inabaladas, mantendo um diálogo direto e constante, ainda que a relação pessoal entre os presidentes Lula e Milei não seja próxima.
Fonte: G1