A liquidação extrajudicial do Banco Pleno, decretada pelo Banco Central nesta quarta-feira (18), encerra uma trajetória marcada por mudanças de controle, tentativas de reposicionamento e instabilidade operacional.
A instituição surgiu a partir do Banco Indusval & Partners Corretora (BI&P), fundado em 1967 e atuante principalmente no crédito corporativo e no financiamento ao agronegócio. Com dificuldades operacionais e resultados pressionados, o banco passou por diversas reorganizações societárias.
Em 2019, sob o controle do empresário Roberto de Rezende Barbosa, a instituição adotou o nome Banco Voiter, em uma estratégia de enxugamento da estrutura e aposta em soluções digitais, mas sem conseguir estabilizar o negócio. Diante das dificuldades, os controladores passaram a buscar potenciais compradores.
Em 2023, o banco chegou a negociar uma venda para a Capital Consig, que previa um aporte de R$ 100 milhões e a transferência do controle da instituição. A operação, porém, não avançou, abrindo espaço para conversas com o Banco Master.
No início do ano seguinte, os controladores do então Voiter anunciaram negociações com Daniel Vorcaro, sem divulgar os valores envolvidos. O acordo previa a transferência de controle e a incorporação das áreas de atacado, corretora e gestoras do Voiter ao conglomerado do Master.
Pouco tempo depois, em julho de 2025, o Banco Central autorizou a transferência do controle para Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, dando origem ao Banco Pleno.
Após a venda ao Master, a família Rezende Barbosa entrou em disputa judicial contra o conglomerado e seus controladores, envolvendo uma debênture de R$ 400 milhões emitida pela controladora do grupo. Segundo os vendedores, a primeira parcela de R$ 100 milhões não foi paga e, mesmo após um aditivo que previa o desembolso de R$ 200 milhões em duas parcelas, os valores também não foram quitados.
O Master alegou que os credores teriam exigido a antecipação do contrato. A família acionou a Justiça em São Paulo, com valor da causa estimado em R$ 470,5 milhões, mas desistiu do processo após um acordo homologado no início de novembro, poucos dias antes da intervenção do Banco Central no conglomerado.
A aprovação da operação veio acompanhada de exigências, incluindo a apresentação de um plano para enfrentar eventuais problemas de liquidez. Apesar disso, o banco manteve forte dependência de captação por meio de depósitos a prazo, especialmente Certificados de Depósito Bancário (CDBs), como principal fonte de financiamento.
Segundo dados do BC, em setembro o Banco Pleno tinha passivos de cerca de R$ 6,8 bilhões, com aproximadamente R$ 5,2 bilhões em CDBs e cerca de R$ 760 milhões em letras financeiras. Com o aumento da percepção de risco, esses títulos passaram a ser negociados no mercado secundário com taxas bem acima do CDI, indicando vendas forçadas e deterioração da confiança dos investidores.
A presença do Banco Pleno no sistema financeiro era reduzida. Até setembro do ano passado, a instituição concentrava cerca de 0,04% dos ativos do setor, que superavam R$ 18 trilhões — o que equivale a aproximadamente R$ 7,2 bilhões. Nas captações, a fatia era de cerca de 0,05% de um total superior a R$ 13 trilhões, ou cerca de R$ 6,5 bilhões.
Segundo o BC, a liquidação foi adotada após o agravamento da situação econômico-financeira da instituição, que passou a ter dificuldade para pagar suas obrigações no dia a dia. O órgão também apontou descumprimento de normas e de determinações da própria autoridade reguladora.