Senado argentino decide destino da reforma trabalhista em sessão tensa
O Senado da Argentina analisa nesta sexta-feira (27) a polêmica reforma trabalhista proposta pelo presidente Javier Milei, em votação considerada crucial para o governo. O debate ocorre sob forte tensão, com uma greve nacional convocada pela Frente Sindical Unida (FreSU) e protestos massivos nas ruas de Buenos Aires.
O cenário legislativo
O projeto chega à câmara alta após ser aprovado na Câmara dos Deputados na última quinta-feira (19), por 135 votos a 115. Para garantir a aprovação, o governo negociou cerca de 30 mudanças no texto original, retirando pontos de maior resistência. Agora, os senadores decidirão se mantêm a versão aprovada ou propõem novos ajustes. Caso alterado, o texto retorna à Câmara; se mantido, segue para sanção presidencial.
Analistas apontam para um cenário de incerteza no Senado, com três caminhos possíveis: aprovação integral, reabertura da discussão com retorno à Câmara, ou adiamento da votação por falta de consenso.
Principais pontos da reforma
O governo defende a medida como necessária para modernizar regras “rígidas e desatualizadas”, visando reduzir custos trabalhistas, aumentar a segurança jurídica e incentivar a criação de empregos formais. Os principais pontos aprovados pela Câmara incluem:
- Férias flexíveis: Podem ser fracionadas em períodos mínimos de sete dias e negociadas fora do período tradicional.
- Restrições a greves: Setores essenciais devem manter 50% a 75% de funcionamento durante paralisações.
- Período de experiência ampliado: Pode chegar a seis meses, com possibilidade de extensão para 8 ou 12 meses em alguns casos, e indenizações reduzidas.
- Jornada flexível: Carga diária pode aumentar de 8 para até 12 horas, com compensação conforme demanda, sem pagamento de horas extras.
- Mudanças na negociação coletiva: Empresas podem firmar acordos diretos com sindicatos locais, reduzindo o peso das convenções nacionais.
- Demissões e indenizações: Cálculo das indenizações será reduzido e o pagamento poderá ser parcelado.
- Combate à informalidade: Elimina multas por falta de registro e cria mecanismos de regularização, mas proíbe a contratação de monotributistas para funções com vínculo formal.
- Trabalhadores de aplicativos: Reconhecidos como autônomos, com regras próprias e acesso a seguro.
- Teletrabalho: Deixa de seguir obrigações adicionais criadas durante a pandemia.
O que foi retirado do projeto original
Para obter maioria, o governo retirou pontos polêmicos, como:
- Pagamento de parte do salário em bens ou serviços (como moradia). O texto aprovado determina pagamento exclusivo em dinheiro.
- Pagamento de salários por carteiras digitais e plataformas. Agora, deve ser feito por bancos ou instituições oficiais.
- Regra que permitia reduzir em até 50% a indenização de trabalhadores com capacidade afetada por acidente fora do trabalho. A indenização deve ser integral.
Protestos e mobilização sindical
Enquanto o Senado debate, sindicatos de diversos setores realizam uma greve nacional contra a reforma. A principal mobilização ocorre em Buenos Aires, com concentração na Avenida de Mayo e marcha até o Congresso, sob o lema “Contra a reforma trabalhista, pelos nossos direitos e por aumentos salariais já”.
Diferentemente da semana passada, a FreSU atua separadamente da Confederación General del Trabajo (CGT), que promoveu greve geral mas não convocou manifestações de rua. A CGT, no entanto, deve entrar com ação judicial contra “aspectos inconstitucionais” da reforma e convocar ato em frente ao Supremo Tribunal na próxima segunda-feira (2).
A expectativa é que a região do Congresso permaneça tomada por protestos durante toda a sessão, aumentando a tensão em um dos momentos mais decisivos do governo Milei.