A reunião com policiais federais que atuam no caso do Banco Master, marcada para esta sexta-feira (13), representa o primeiro teste do ministro André Mendonça à frente de uma das investigações mais sensíveis em curso no Supremo Tribunal Federal (STF). A convocação foi seu primeiro ato como novo relator, menos de 12 horas após o sorteio que definiu seu nome.

No Congresso, a expectativa é alta: o avanço das apurações pode atingir políticos e autoridades, e o rumo dado por Mendonça tende a influenciar o ambiente político no ano eleitoral. O caso passa às mãos de um ministro que, desde que chegou à Corte, nunca se encaixou totalmente no núcleo mais influente do tribunal, liderado por Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino.

Indicado por Jair Bolsonaro sob o rótulo de “terrivelmente evangélico”, Mendonça desembarcou no STF como uma espécie de “lobo solitário”. Aproximou-se de Luiz Fux recentemente e mantém interlocução com Edson Fachin e Cármen Lúcia. Historicamente, deu votos contrários ao grupo que lidera as decisões mais duras em investigações envolvendo bolsonaristas.

No início de 2025, Mendonça foi o único ministro a votar pelo impedimento de Moraes no julgamento que, meses depois, resultaria na condenação de Bolsonaro e aliados por tentativa de golpe de Estado. O placar final foi de 9 a 1. Seu argumento era que, como as investigações da PF revelaram um suposto plano de assassinato contra autoridades — incluindo o próprio Moraes —, o ministro estaria na condição de vítima direta, o que impediria a neutralidade necessária para sentenciar. O entendimento foi rejeitado pelos demais ministros.

A divergência com Moraes não foi pontual. Em 2023, os dois bateram boca no julgamento do primeiro réu dos ataques golpistas de 8 de janeiro. O embate foi sobre a atuação do Ministério da Justiça, então sob comando de Flávio Dino. A postura de contraponto também ficou nítida no julgamento sobre a responsabilização das Big Techs. Enquanto o tribunal caminhava para endurecer regras para plataformas, Mendonça votou contra a punição das redes sociais por conteúdos de terceiros, argumentando que bloquear perfis antes de uma prova definitiva configuraria “censura prévia”. Ficou isolado em um placar de 8 a 3.

Ex-ministro da Justiça e da AGU no governo Bolsonaro, Mendonça mantém proximidade com antigos colegas, como Michelle Bolsonaro, o senador Rogério Marinho e o governador Tarcísio de Freitas. Também tem aliados em partidos de direita e no centrão.

Além do inquérito recém-assumido, Mendonça já conduz investigações sobre fraudes bilionárias no INSS. Os dois casos se cruzam na suspeita de que o Master fraudou milhares de contratos de crédito consignado. Ambos os processos foram herdados de Dias Toffoli.

No Congresso, a CPI mista que investiga fraudes no INSS pretende interrogar o banqueiro Daniel Vorcaro na próxima semana. Os dados da quebra de sigilos aprovada pelos parlamentares estão sob responsabilidade do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, por decisão de Toffoli. A relação entre Mendonça e Alcolumbre tem histórico: quando foi indicado ao STF, Mendonça ficou cinco meses esperando Alcolumbre, então presidente da CCJ do Senado, marcar sua sabatina. Foi aprovado no plenário com o placar mais apertado entre os ministros indicados recentemente.

A investigação do caso Master tem um braço que trata da Previdência do Amapá. Os indicados para tocarem essa previdência, que investiu nos papéis do Master, teriam sido indicados por Alcolumbre.