Ataques recentes a infraestruturas hídricas no Golfo Pérsico expuseram uma vulnerabilidade crítica na região mais árida do mundo. Usinas de dessalinização, vitais para a sobrevivência de milhões, tornaram-se alvos militares potenciais, elevando a água ao status de recurso estratégico em conflitos.

No domingo (8), uma usina no Bahrein foi danificada por um drone, segundo autoridades locais. O ataque ocorreu após o Irã acusar o país vizinho de uma ofensiva semelhante contra instalações em Qeshm, que teria afetado o abastecimento de 30 vilarejos.

“Quem se atrever a atacar a água desencadeará uma guerra muito mais devastadora do que a atual”, alerta Esther Crauser-Delbourg, economista especializada em recursos hídricos, em declaração à AFP.

Dependência Vital da Dessalinização

O Oriente Médio concentra 42% da capacidade global de dessalinização, segundo estudo publicado na revista Nature. A dependência é extrema: 42% da água potável dos Emirados Árabes Unidos vem dessas usinas, percentual que sobe para 70% na Arábia Saudita, 86% em Omã e 90% no Kuwait.

“Lá, sem água dessalinizada, não há nada”, afirma Crauser-Delbourg. Em 2010, uma análise da CIA já alertava que a interrupção dessas instalações na maioria dos países árabes “poderia ter consequências mais graves do que a perda de qualquer outra indústria ou matéria-prima”.

Vulnerabilidades e Medidas de Segurança

Além de ataques diretos, as usinas são vulneráveis a cortes de energia e contaminações da água do mar por vazamentos de petróleo. Philippe Bourdeaux, diretor da Veolia para África/Oriente Médio, revelou à AFP que “em alguns países, as autoridades implantaram baterias de mísseis ao redor das maiores usinas ante a ameaça de drones ou mísseis”.

Segundo Bourdeaux, as instalações geralmente são interconectadas e possuem reservas para dois a sete dias, o que pode mitigar interrupções breves.

Consequências Potenciais de um Ataque em Larga Escala

Especialistas preveem cenários catastróficos: êxodo populacional de grandes cidades, racionamento severo e colapso de setores econômicos como turismo, indústria e centros de dados, que dependem de grandes volumes de água para refrigeração.

Um telegrama diplomático dos EUA divulgado pelo WikiLeaks em 2008 chegou a sugerir que “Riade deveria ser evacuada em uma semana” caso a usina de dessalinização de Jubail fosse “gravemente danificada ou destruída”.

Com precedentes no Iêmen, Arábia Saudita e Gaza, e antes disso na Guerra do Golfo de 1991, a água emerge não apenas como recurso vital, mas como possível instrumento de guerra no século XXI.