O conceito de “affordability”, que mede a capacidade da renda cobrir as despesas do dia a dia, tornou-se um fator decisivo em eleições recentes nos Estados Unidos e na Europa. Analistas políticos avaliam que essa mesma dinâmica pode influenciar profundamente a disputa presidencial brasileira de 2026, colocando o custo de vida no centro do debate eleitoral.
Em termos práticos, “affordability” se refere ao impacto concreto do custo de vida no orçamento familiar. “É o impacto do custo de vida sobre a decisão de voto”, explica Carlos Oliveira, professor de Ciência Política da UnB, lembrando a famosa frase da campanha de Bill Clinton: “É a economia, estúpido”.
Por que o tema ganhou força globalmente?
O choque inflacionário pós-pandemia e agravado pela Guerra na Ucrânia fez populações acostumadas a inflação baixa sentirem na pele a perda do poder de compra. “Quando você pega uma inflação que chega a 8% ao ano, você sente. A pessoa sente que está conseguindo comprar menos”, afirma Leonardo Paz, cientista político da FGV.
Ele é taxático sobre a relevância para o Brasil: “Eu posso garantir com 100% de certeza… que esse tema vai ser importante, porque custo de vida é um tema importante de todo país em desenvolvimento”.
Casos de sucesso nos EUA
Enquanto o Partido Republicano focava em crime e imigração, democratas venceram eleições estaduais importantes nos EUA centralizando suas campanhas no “affordability”.
- Mikie Sherrill venceu a eleição para governadora de Nova Jersey prometendo reduzir custos de energia, facilitar moradia barata e apoiar pequenas empresas.
- Zohran Mamdani foi eleito prefeito de Nova York com pautas focadas em controle de aluguéis, financiamento de escolas e apoio ao comércio local.
O cenário brasileiro e a pressão da classe média
Uma pesquisa Quaest mostra que 61% dos brasileiros acreditam conseguir comprar menos hoje do que há um ano. Para a classe média, que não é tão beneficiada por programas sociais e é mais sensível à inflação, o tema pode ser decisivo.
“A classe média fica mais espremida porque sente mais o aumento dos preços”, analisa Leonardo Paz. Ele destaca que o “bolso do indivíduo” é um grande indutor do voto: “Quando o dinheiro não é suficiente nem para comer, é muito intuitivo esperar que a mudança de governante seja uma solução”.
Quem vai liderar o debate no Brasil?
Carlos Oliveira avalia que a disputa pela narrativa do custo de vida dependerá da situação econômica às vésperas das eleições:
- Custo de vida controlado: Será tema do governo que busca reeleição.
- Custo de vida alto: Será uma bandeira poderosa para a oposição.
Oliveira aponta que a direita pode ter vantagem na simplicidade da mensagem: “apresenta soluções normalmente mais simples, de mais fácil compreensão”. No entanto, ressalta que a esquerda já incorporou pautas econômicas populares, como visto com a manutenção do Bolsa Família por governos de diferentes espectros.
Segurança Pública: o outro pilar da disputa
Apesar da força do tema econômico, analistas alertam que a segurança pública deve continuar como protagonista nos debates brasileiros. “Várias pesquisas de opinião mostram que esse tem sido o tema mais preocupante para a maioria da população”, diz Oliveira, destacando que é uma preocupação transversal a todas as classes sociais.
A eleição de 2026, portanto, deve ser moldada pela tensão entre estas duas grandes agendas: a pressão concreta no bolso do eleitor (affordability) e a demanda por segurança, com os candidatos disputando qual tema conseguirá dominar a atenção do eleitorado.