A assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia representa um marco histórico que aproxima cadeias produtivas estratégicas de dois continentes. O tratado evidencia uma relação econômica profundamente assimétrica, na qual o Brasil ocupa uma posição absolutamente central, funcionando como o principal eixo da parceria.
O acordo prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas de importação e exportação, abrangendo mais de 90% do comércio total entre os blocos. Após mais de 25 anos de negociações, o texto estabelece regras comuns para áreas como bens industriais e agrícolas, investimentos e padrões regulatórios.
Dados da Comissão Europeia revelam a magnitude do protagonismo brasileiro: o país responde por mais de 82% de todas as importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco sul-americano destinadas à UE. Com essa configuração, Argentina, Uruguai e Paraguai tendem a ocupar uma posição secundária na dinâmica do acordo.
A Dependência do Brasil
As importações brasileiras da União Europeia estão altamente concentradas em poucos parceiros e em produtos de alto valor tecnológico. Em 2025, três países responderam por cerca de 57% dos US$ 50,3 bilhões importados:
- Alemanha: US$ 14,4 bilhões (28,6%)
- França: US$ 7,2 bilhões (14,3%)
- Itália: US$ 7,1 bilhões (14%)
A pauta de importações é dominada por bens essenciais para a indústria e serviços, como medicamentos (US$ 8,1 bi), autopeças (US$ 2,5 bi), motores e máquinas (US$ 2,4 bi), aeronaves (US$ 1,2 bi) e equipamentos de medição (US$ 1,4 bi). A retirada das tarifas, que em alguns casos chegam a 35% ou 40%, promete reduzir significativamente os custos de produção no Brasil ao baratear a importação desses insumos críticos.
Quem Depende do Brasil?
Para a União Europeia, o Brasil é um fornecedor estratégico de insumos básicos e matérias-primas. Em 2025, 73% das exportações brasileiras para o bloco (US$ 49,81 bilhões) tiveram como destino cinco países:
- Holanda: US$ 11,7 bilhões (23,6%) – atuando como hub logístico
- Espanha: US$ 8,8 bilhões (17,7%)
- Alemanha: US$ 6,5 bilhões (13,1%)
- Itália: US$ 5,3 bilhões (10,8%)
- Bélgica: US$ 4 bilhões (8,1%)
O acordo é visto por países como Espanha e Alemanha como parte de uma estratégia europeia para fortalecer a economia e diversificar mercados diante das tensões geopolíticas globais. A pauta exportadora brasileira reflete essa dependência, sendo concentrada em produtos primários: óleo bruto de petróleo (US$ 9,8 bi), café não torrado (US$ 7,1 bi), farelo de soja (US$ 4 bi), minérios de cobre (US$ 3 bi), celulose (US$ 2,1 bi) e minério de ferro (US$ 1,1 bi).
Os Demais Países do Mercosul
A assimetria do acordo se reflete claramente na posição dos outros membros do Mercosul. A Argentina, embora seja o segundo principal parceiro sul-americano da UE, viu suas exportações para o bloco em 2024 (US$ 8,5 bilhões) serem quase cinco vezes menores que as brasileiras. O distanciamento político entre os governos Lula e Milei contribuiu para esvaziar o papel argentino nas negociações finais.
O Uruguai apresenta crescimento gradual e maior previsibilidade, mas enfrenta limitações técnicas para atender às exigências ambientais europeias, partindo de uma base regulatória considerada mais frágil que a brasileira. O Paraguai, por sua vez, tem um peso econômico reduzido na relação com a UE, mas ganhou relevância processual ao assumir a presidência temporária do Mercosul durante a etapa final de ratificação do acordo.
Em síntese, o Acordo UE-Mercosul consolida o Brasil como o centro gravitacional da relação entre os blocos. Sua escala econômica, diversidade produtiva e peso político o tornam o interlocutor indispensável, definindo os rumos e o ritmo dessa parceria continental, enquanto os demais países do Mercosul navegam em uma posição claramente secundária dentro da estrutura assimétrica do tratado.