Após quase 26 anos de negociações, a União Europeia e o Mercosul selam um histórico acordo de livre comércio. A cerimônia de assinatura, realizada no Paraguai, marca o início de um novo capítulo nas relações comerciais entre os blocos, com impactos significativos para o agronegócio brasileiro.

O tratado prevê a eliminação gradual das tarifas de importação para 77% dos produtos agropecuários que a UE compra do Mercosul. Para o Brasil, segundo maior fornecedor agrícola do bloco europeu, o acordo surge em um momento estratégico, diante de tensões comerciais com outros grandes parceiros.

O Potencial por Setor

Carnes: Um dos pontos mais sensíveis. O acordo estabelece uma cota conjunta do Mercosul de 99 mil toneladas anuais de carne bovina, com tarifa inicial de 7,5%, e uma cota de 180 mil toneladas de carne de frango com tarifa zero a ser implementada em seis anos. Embora especialistas considerem o volume inicial limitado, o acordo eleva o status do Mercosul a parceiro preferencial da UE.

Café: O café solúvel e o torrado/moído, atualmente taxados em 9% e 7,5% respectivamente, terão suas tarifas zeradas em quatro anos. Isso pode aumentar a competitividade brasileira frente a concorrentes como o Vietnã, que já possui acesso livre, e atrair novos investimentos europeus no setor.

Soja: O produto mais exportado do agro brasileiro para a UE não terá mudanças tarifárias, pois já entra no bloco com taxa zero. A principal vantagem será a maior previsibilidade e redução de custos burocráticos.

Os Obstáculos: As Salvaguardas Europeias

O acordo não está livre de controvérsias. A UE aprovou um mecanismo de salvaguardas que permite suspender temporariamente os benefícios tarifários se as importações de um produto considerado sensível aumentarem 5% na média de três anos. Essas regras, vistas com preocupação por produtores brasileiros, podem gerar insegurança jurídica e são consideradas por alguns uma potencial barreira disfarçada.

Um Marco Comercial Global

Além do agro, o acordo abrange setores como automóveis, máquinas, produtos químicos e serviços, envolvendo um mercado de 722 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. Para a UE, é uma chance de aumentar exportações e reduzir a dependência de outros mercados, enquanto o Mercosul ganha acesso privilegiado a uma das maiores economias do mundo.

O caminho até a plena implementação ainda passa pela ratificação nos congressos nacionais de todos os países envolvidos, um processo que promete manter o acordo no centro do debate econômico e político.