O que está em jogo para o agro brasileiro no acordo UE-Mercosul
Os países da União Europeia (UE) aprovaram, em 9 de janeiro de 2026, o acordo de livre comércio com o Mercosul, bloco composto por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O próximo passo é a assinatura formal, prevista para 17 de janeiro, conforme anunciado pelo Ministério das Relações Exteriores da Argentina. Para entrar em vigor, o tratado ainda precisará ser ratificado pelos congressos dos países sul-americanos.
Embora o acordo abranja diversos setores, o agronegócio foi o ponto mais sensível e polêmico durante as décadas de negociação. Produtores europeus, principalmente da França e da Polônia, realizaram diversos protestos, alegando que seriam prejudicados pela entrada de produtos sul-americanos mais competitivos.
Para o Brasil, um dos maiores produtores de alimentos do mundo e onde a UE já é o segundo maior cliente do agronegócio (atrás da China e à frente dos EUA), o acordo representa uma oportunidade estratégica. Sua importância aumentou após a queda nas vendas para os EUA em 2025, devido às sobretaxas impostas pelo então presidente Donald Trump, e diante de recentes limitações impostas por China e México às importações de carne brasileira.
O que o acordo prevê para o agronegócio?
O tratado prevê a eliminação das tarifas de importação para 77% dos produtos agropecuários que a UE compra do Mercosul. Isso deve impulsionar as vendas de itens como café, frutas, peixes, crustáceos e óleos vegetais, que terão suas taxas gradualmente zeradas ao longo de prazos que variam de 4 a 10 anos.
Produtos considerados “sensíveis” pela UE, como carnes bovina e de frango, terão acesso por meio de cotas de exportação, e não por liberalização total, para proteger a produção local europeia.
Potencial por segmento
Carnes
O setor de carnes foi um dos mais tensionados. Atualmente, a carne bovina brasileira enfrenta tarifas na UE. Com o acordo, uma cota chamada “Hilton” para cortes nobres (10 mil toneladas/ano) terá sua taxa de 20% zerada. Para outros tipos de carne bovina, o Mercosul terá uma cota conjunta de 99 mil toneladas por ano, com tarifa inicial de 7,5%.
Para a carne de frango, o Brasil e seus parceiros do Mercosul ganharão uma cota anual adicional de 180 mil toneladas com tarifa zero, a ser implementada progressivamente ao longo de seis anos. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) vê no acordo um “avanço relevante para a previsibilidade comercial”, com potencial concreto para aumento das exportações.
Café
O café é o segundo produto brasileiro mais vendido para a UE em valor. Enquanto o grão já entra sem tarifa, o café solúvel e o torrado/moído sofrem taxas de 9% e 7,5%, respectivamente. O acordo prevê a eliminação dessas tarifas em quatro anos, o que pode tornar o solúvel brasileiro mais competitivo frente a concorrentes como o Vietnã, que já tem acesso livre. Além das exportações, o tratado pode atrair mais investimentos europeus para a indústria cafeeira no Brasil.
Soja
Para a soja, principal produto de exportação do agro brasileiro para a UE, o acordo não trará mudanças tarifárias, pois o grão e o farelo já ingressam no bloco europeu com taxa zero há muitos anos.
Preocupações: As Salvaguardas Europeias
Um ponto de atrito foram as chamadas “salvaguardas” aprovadas pela UE em dezembro de 2025 para proteger seu agronegócio. Essas regras permitem que a UE suspenda temporariamente os benefícios tarifários se as importações de um produto considerado sensível aumentarem 5% (em média de três anos), prejudicando produtores locais.
Especialistas e entidades do setor, como a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Fundação Getulio Vargas (FGV), veem essas cláusulas com preocupação. Elas podem ser acionadas de forma mais rápida (investigações de 2 a 3 meses) e incluem a exigência de que o Mercosul adote as mesmas normas de produção da UE, o que pode gerar insegurança jurídica e ser usado como barreira disfarçada.
Perspectivas e Próximos Passos
O acordo UE-Mercosul, cujas discussões começaram em 1999, é considerado um dos maiores do mundo, abrangendo cerca de 722 milhões de habitantes e um PIB combinado de US$ 22 trilhões. Para a UE, ele representa a chance de aumentar exportações de carros, máquinas, produtos químicos e itens como queijos e vinhos para o Mercosul, além de reduzir a dependência de minerais da China.
Após a assinatura, o tratado seguirá para os processos de ratificação nos parlamentos nacionais de todos os países envolvidos, um caminho que ainda pode enfrentar resistência, especialmente na Europa.
Fonte: G1