Acordo histórico gera reações opostas na Europa e na América do Sul

A aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, nesta sexta-feira (9), após mais de 25 anos de negociações, desencadeou uma onda de reações contrastantes. Enquanto líderes políticos e representantes empresariais de ambos os blocos comemoram um “marco histórico”, agricultores europeus foram às ruas em protesto, temendo a concorrência de produtos sul-americanos.

Celebração política e visão estratégica

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, classificou o dia como “histórico para o multilateralismo”, especialmente em um cenário global de crescente protecionismo. Do lado europeu, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que o acordo “envia um sinal forte” e cria crescimento e empregos, destacando “salvaguardas robustas” para proteger os agricultores.

Líderes como o chanceler alemão Friedrich Merz e a ministra das Relações Exteriores da Áustria, Beate Meinl-Reisinger, celebraram o pacto como um passo crucial para a soberania estratégica da Europa e uma forma de diversificar parcerias comerciais, reduzindo a dependência de outros mercados.

Os protestos e os temores do campo europeu

Paralelamente às celebrações, agricultores na Polônia, Bélgica e França bloquearam estradas e protestaram. O principal receio é a entrada de produtos agrícolas, especialmente carne bovina, produzidos com custos menores e sob regras ambientais e sanitárias percebidas como menos rigorosas do que as da UE, o que poderia representar concorrência desleal.

O que está em jogo: números e controvérsias

Apresentado como o maior acordo da UE em termos de redução tarifária, o pacto promete eliminar mais de 4 bilhões de euros anuais em impostos para exportações europeias e abrir concorrência por contratos públicos no Mercosul. Defensores veem o acordo como chave para acessar matérias-primas estratégicas, como o lítio.

No entanto, críticos, incluindo o presidente francês Emmanuel Macron, argumentam que os ganhos econômicos são limitados (com impacto estimado de 0,05% no PIB da UE até 2040) e não justificam os riscos para setores agrícolas estratégicos. Organizações ambientalistas, como a Amigos da Terra, alertam que o tratado pode ser “devastador para o clima” e incentivar o desmatamento.

Salvaguardas e próximos passos

Para enfrentar as críticas, o acordo inclui mecanismos de proteção, como a possibilidade de suspender importações de produtos sensíveis (como carne) se houver um aumento excessivo, com o gatilho reduzido de 8% para 5%. Também está previsto um fundo de crise de 6,3 bilhões de euros para apoiar agricultores.

Com a aprovação provisória, a assinatura formal está prevista para a próxima segunda-feira (12), no Paraguai. Contudo, o processo está longe do fim: o tratado ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os países envolvidos, garantindo que o debate intenso continuará.

Fonte: G1 – https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/01/09/acordo-ue-mercosul-repercussao.ghtml