Após quase 25 anos de negociações, a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que criaria a maior zona de livre comércio do mundo, foi adiada. A Comissão Europeia planejava formalizar o pacto, mas a Itália alinhou-se à França para solicitar um adiamento, visando maior proteção para o setor agrícola europeu. O processo foi remarcado para janeiro.
“Entramos em contato com nossos parceiros do Mercosul e concordamos em adiar ligeiramente a assinatura”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, expressando confiança na existência de uma maioria suficiente para concluir o acordo.
A resistência liderada pela França
O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que a França não apoiará o acordo sem a inclusão de novas salvaguardas para os seus agricultores, posicionando o país como o principal foco de resistência dentro do bloco. “Consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, afirmou, antecipando a oposição a qualquer tentativa de forçar a adoção do pacto.
Entre os agricultores franceses, o acordo é visto como uma ameaça, devido ao receio de concorrência com produtos latino-americanos mais baratos e produzidos sob padrões ambientais diferentes dos europeus.
A posição condicional da Itália
A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que o país pode apoiar o acordo, desde que sejam atendidas as preocupações dos agricultores italianos. “O governo italiano está pronto para assinar o acordo assim que forem dadas as respostas necessárias aos agricultores”, declarou, indicando que a solução depende da Comissão Europeia.
O apoio da Alemanha e da Espanha
Enquanto isso, o chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, defenderam a conclusão do acordo firmado politicamente em 2023. Alemanha, Espanha e países nórdicos avaliam que o tratado pode ajudar a compensar os efeitos de tarifas comerciais dos EUA e reduzir a dependência da China, ao ampliar o acesso a minerais e novos mercados. “Se a União Europeia quiser manter credibilidade na política comercial global, decisões precisam ser tomadas agora”, declarou Merz.
O processo de aprovação e os seus riscos
A decisão final cabe ao Conselho Europeu, que exige uma maioria qualificada: o apoio de pelo menos 15 dos 27 países, representando 65% da população da UE. Esta etapa concentra o principal risco político para o avanço do acordo.
Embora o debate público se centre no agronegócio, o tratado é mais abrangente, cobrindo também indústria, serviços, investimentos, propriedade intelectual e insumos produtivos.
O otimismo do Brasil
O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, manteve-se otimista após conversar com a primeira-ministra italiana. Segundo Lula, Meloni não é contrária ao tratado, mas enfrenta um “constrangimento político” devido à pressão dos agricultores. “Se a gente tiver paciência de uma semana, de dez dias, de no máximo um mês, a Itália estará junto com o acordo”, afirmou o presidente.